quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

ANÁLISE: Os 5 piores fuzis AK já feitos (5 vídeos)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 10 de dezembro de 2020.

Uma análise em 5 vídeos feita pelo conselheiro técnico Vladimir Onokoy, especialista nos sistemas Kalashnikov do Grupo Kalashnikov, na Rússia. Ele fez um ranking de cinco países que produziram os piores fuzis Avtomat Kalashnikova (Fuzil Automático Kalashnikov). As posições de piores "Kalash" ficaram:

  1. Paquistão
  2. Etiópia
  3. Estados Unidos
  4. Iraque
  5. China




Transcrição do vídeo sobre os AK americanos

"Os próprios americanos entendem essa situação muito bem e zombam dos fabricantes de tais cópias vagabundas muito mais do que eu." 
- Vladimir Onokoy.

Olá e bem-vindos ao curso de palestras da Kalashnikov Media! Meu nome é Vladimir Onokoy. Hoje vamos falar sobre as cinco piores variantes do AK já feitas.

Terceiro lugar: Estados Unidos.

Pode ser uma surpresa para muitos, mas os AK também são feitos nos Estados Unidos, com dezenas de empresas os fabricando. Algumas das variantes de melhor qualidade - e, curiosamente, também algumas das piores variantes vêm de lá. Como isso aconteceu? Inicialmente, até 1989, os AK para uso civil foram vendidos nos Estados Unidos sem restrições. Esses foram feitos principalmente no Egito, Finlândia e Hungria. As pessoas estavam super interessadas nas armas soviéticas e elas eram vendidas como rapidamente.

Exemplo de um anúncio de fuzis AK finlandeses de uso civil vendidos nos EUA.

Peças típicas de um kit vendido nos EUA.

Em 1989, foi aprovada a primeira lei que regulamentava a circulação e, o mais importante, a importação dessas armas, e foi quando os kits de peças chegaram ao mercado. Basicamente, eram fuzis normais com seus receptores serrados em três lugares. Ao chegar aos EUA, eles seriam remontados com novos receptores, mantendo os munhões, grupo do gatilho e o cano. Isso significou que uma indústria totalmente desenvolvida teve de ser estabelecida muito rapidamente nos Estados Unidos para acompanhar a demanda. Como mencionei antes, em 1993, os fuzis chineses pararam de vir para os EUA, o que causou um motivo ainda maior para iniciar a produção local.

Inicialmente, as pequenas empresas, também conhecidas como lojas personalizadas (custom shops), começaram a fazer um bom trabalho e cobraram taxas especiais por isso. No entanto, em 1994, a Proibição de Armas de Assalto (Assault Weapon Ban) foi aplicada e, até 2004, a circulação dessas armas tinha sido muito limitada. Em 2004, a proibição acabou produzindo absolutamente zero resultados e, nessa época, as guerras do Iraque e do Afeganistão haviam começado. Ao voltar para casa, os veteranos muitas vezes queriam armas que haviam encontrado no campo de batalha para sua coleção doméstica. Foi assim que surgiu uma demanda considerável pela produção de fuzis AK.

Fuzis AK apreendidos no Iraque, 2010.

"Century Arms: Porque mesmo macacos alcoólatras precisam de empregos."

Como eu disse, inicialmente isso estava sendo fornecido por pequenas lojas personalizadas. No entanto, com o tempo, as pessoas entraram nesse negócio com a única intenção de ganhar dinheiro. E foi assim que algumas das piores variantes do AK surgiram. Os próprios americanos entendem essa situação muito bem e zombam dos fabricantes de tais cópias vagabundas muito mais do que eu.

Um desses infames fabricantes americanos de AK foi a empresa Inter Ordnance (IO). Eles decidiram ganhar dinheiro rápido produzindo um AK vagabundo e começaram a lançar sua versão AKM (alegadamente feita de acordo com um desenho técnico polonês). De alguma forma, esse projeto não funcionaria se um amortecedor de borracha estivesse faltando no conjunto de recuo. Na ausência de um, o conjunto do ferrolho simplesmente ficaria preso na parte de trás do receptor [caixa da culatra]. O fabricante simplesmente ignoraria as perguntas sobre se algo assim já aconteceu com os fuzis poloneses. Suas armas eram mal-feitas e com toneladas de problemas. Os ferrolhos se desintegrariam. Os rebites nos munhões costumavam ser muito defeituosos. Alguns daqueles fuzis eram tão tortos que alguém pensaria que foram projetados para atirar do canto de uma esquina. Naturalmente, depois que os clientes tiveram uma ideia do que fazia uma AK de qualidade, a IO viu suas vendas despencarem. E, no momento, eles não estão mais produzindo fuzis AK.

Sua única qualidade restante era a garantia vitalícia. Isso significava que você poderia ter sua arma de fogo reparada ou substituída gratuitamente, caso ela estragasse. No entanto, assim que pararam de fabricá-los, a garantia vitalícia também acabou. Tudo o que restou foram clientes descontentes e o merecido prêmio pelo pior AK já feito nos EUA.

Fuzil AK da IO com os cano e mira totalmente desalinhados.

Existem também muitas oficinas de garagem que montam fuzis AK a partir de peças. Onde as pessoas amam o que estão fazendo, geralmente há bons resultados. No entanto, às vezes as coisas acontecem de maneira diferente. Certa vez, um amigo meu comprou um AKMS [Avtomát Kalášnikova modernizírovannyj, AK modernizada; S de Skladnoy, dobrável/rebatível] de uma dessas [oficinas]. Depois de um tempo, coisas estranhas começaram a acontecer com ele: depois do primeiro tiro, o conjunto do ferrolho ficou preso na posição mais recuada e não havia praticamente nada que você pudesse fazer a respeito. Ele substituiu o conjunto do ferrolho, mas nada mudou. "Você é um armeiro! Faça alguma coisa", ele me disse.

Ok, comecei a investigar e não pude acreditar nas descobertas iniciais. O cão (martelo que bate no percussor) era tão grande que qualquer recuo curto ou apenas puxar o conjunto do ferrolho para trás faria o retém do conjunto prender no cão e emperrar. Achei que o motivo não poderia ter sido tão fácil. Como alguém monta um fuzil que essencialmente não pode atirar? Ou melhor, pode disparar uma vez, mas invariavelmente emperra. Acabei tendo que raspar pelo menos meio centímetro de aço do cão. Não meio milímetro. Não alguns mícrons. Meio centímetro de aço foi o que eu tive que tirar antes que a arma começasse a funcionar corretamente. Portanto, como costuma acontecer com essas oficinas de garagem, as peças que elas produzem não podem ser disparadas duas vezes seguidas. Para fazê-los atirar como pretendido, é preciso usar uma lima ou, melhor ainda, uma furadeira Dremel neles.

Vladimir na oficina Rifle Dynamics de Jim Fuller produzindo fuzis AK.

Há também uma empresa chamada Century [Arms] que importava armas estrangeiras para os EUA e montava algumas com peças importadas, e não havia problemas com elas.Em dado momento, eles decidiram que queriam fazer seus próprios AK. Agora, eles são conhecidos como "compre um e ganhe dois" - isto é, um fuzil e uma granada-de-mão. No entanto, são diferentes das granadas de mão porque podem explodir aleatoriamente, pois seus receptores costumam ser de qualidade questionável. O que é realmente surpreendente é que seus fuzis só pioram a cada nova versão.

Quem gosta de assistir a vídeos de treinadores de armas de fogo americanos pode estar familiarizado com James Yeager, que certa vez decidiu fazer um teste honesto com fuzis novos em folha da Century. O teste foi curto, pois os dois fuzis morreram após 1.500 tiros. Em um deles, era possível remover o pino que prende o cano no lugar usando apenas um martelo e uma ferramenta de punção leve. Acho que era o mesmo fuzil cujo cano se movia para frente e para trás depois de dar uma boa batida no concreto. Você poderia alterar a folga entre o cartucho e a munição nele e meio que trazê-lo de volta ao normal, quebrando a arma no chão. O cano agora vivia uma vida independente, movendo-se livremente. O treinador acabou declarando que não iria mais testar aqueles fuzis, pois as pessoas começaram a xingá-lo, e isso só iria incomodar ainda mais a empresa e os telespectadores.

Carabina Saiga em uma loja de armas americana custando 1.349 dólares.

Como resultado de tudo isso, verdadeiros conhecedores de AK nos Estados Unidos estão limitados a comprar peças importadas; antes das sanções, as nossas Saigas eram uma escolha popular. Eles estão atualmente cobrando uma pequena fortuna por eles; eu os vi custando US$ 1.300 (por volta de R$ 6.534), e os preços certamente subiram ainda mais agora. A alternativa é gastar ainda mais, cerca de 2-2,5 mil, em um fuzil personalizado montado por pessoas que realmente amam nossas armas e têm uma ideia adequada do que é controle de qualidade.

Falando francamente, a partir de 2019, nem uma única arma padrão AK atualmente produzida em massa nos EUA deveria ser chamada de Kalashnikov.

Bibliografia recomendada:

AK-47:
A Arma que Transformou a Guerra.
Larry Kahaner.

The AK-47:
Kalashnikov-series assault rifles.
Gordon L. Rottman.

Leitura recomendada:

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

FOTO: Sniper com baioneta calada

Fuzileiro naval venezuelano usando um traje ghillie e carregando um fuzil sniper Dragunov com baioneta calada, 2016.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 9 de dezembro de 2020.

O fuzil Dragunov do naval venezuelano tem uma baioneta porque os russos sempre tiveram uma atração pelo uso da baioneta e sempre enfatizaram o seu emprego em combate. O grande general russo Alexander Vasilyevich Suvorov disse "A bala é uma loucura; só a baioneta sabe o que está fazendo" e "Ataque com o aço frio! Avance com força com a baioneta!". Essa mentalidade permaneceu por muito tempo, e mesmo os fuzis de atiradores de elite mantiveram os reténs das baionetas até o século XXI.

Um dos estudos mais detalhados sobre o estilo de guerra russo foi publicado como "Baionetas antes de balas: O Exército Imperial russo, 1861-1914" (Bayonets Before Bullets: The Imperial Russian Army, 1861-1914, de Bruce W. Menning).

Cabe lembrar que o SVD (Snayperskaya Vintovka Dragunova, literalmente Fuzil Sniper Dragunov) foi o primeiro fuzil projetado para essa função ao invés de ser adaptado para ela. A Venezuela comprou um lote de mil fuzis Dragunov em 2007.

Nos anos 1920 e 30, a União Soviética iniciou um massivo rearmamento e os snipers foram um ponto focal dessa evolução. O exército, chamado na época "Exército Vermelho dos Operários e Camponeses" (Raboche-Krest'yanskaya Krasnaya Armiya, RKKA), era deixado à míngua e subfinanciado em favor das forças de segurança internas, como o NKVD (e o OGPU, que foi passado para o NKVD em 1934), que investiu pesadamente em equipamentos e treinamento para atiradores de elite nesse período, com lunetas baseadas nos modelos Zeiss. À partir de 1926 os soviéticos produziram lunetas baseadas nos modelos Zeiss-Jena e Emil Busch. À partir de 1932 os soviéticos produziram a luneta PE, uma versão melhorada do modelo Busch, e com as experiências da Guerra Civil Espanhola foi criado o modelo PEM, a melhor luneta dos snipers soviéticos. De 1932 a 1938, cerca de 54 mil lunetas foram produzidas e entregues ao exército e NKVD, e o culto ao sniper - snayperskaya - foi amplamente promovido nas forças soviéticas; todos mantendo uma baioneta.

Bibliografia recomendada:

Bayonets before bullets:
The Imperial Russian Army, 1861-1914.
Bruce W. Menning.

Out of Nowhere:
A History of the Military Sniper.
Martin Pegler.

Leitura recomendada:

GALERIA: Snipers no Forças Comando na República Dominicana, 3 de novembro de 2020.

GALERIA: Competição Jäger Shot 2020 na Alemanha, 2 de dezembro de 2020.

FOTO: Sniper separatista na Ucrânia16 de maio de 2020.

FOTO: Sniper vietnamita durante a Operação Mouette15 de outubro de 2020.

FOTO: Posto sniper na Chechênia15 de outubro de 2020.

FOTO: Tocando a baioneta28 de fevereiro de 2020.

PINTURA: Ataque à baioneta, 1915, 23 de fevereiro de 2020.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Saara Marroquino: a defesa da zona tampão de Guergarate

 

Do Jean-Yves de Cara, Theatrum Belli, 15 de novembro de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 8 de dezembro de 2020.

[Nota: As opiniões expressas nesse artigo pertencem ao seu autor e não representam, necessariamente, àquelas do blog Warfare.]

No dia 13 de novembro, diante das graves e inaceitáveis ​​provocações a que as milícias “Polisário” se engajaram na zona tampão de Guergarate no Saara marroquino, “o Marrocos decidiu agir, respeitando suas atribuições, em virtude de seus deveres e no pleno respeito à legalidade internacional”, anunciou o Ministério dos Negócios Estrangeiros, da Cooperação e dos Marroquinos residentes no estrangeiro (Ministère des Affaires étrangères, de la Coopération et des Marocains résidant à l’étranger). As Forças Armadas Reais (Forces armées royalesFAR) estabeleceram um cordão de segurança para garantir o fluxo de mercadorias e pessoas através da zona tampão de Guerguerate que liga o Marrocos à Mauritânia. Esta medida decorre, em particular, do bloqueio do trânsito rodoviário por um grupo de pessoas formadas por milicianos armados da Polisário.

Militantes da Frente Polisário na Argélia. Ao lado, o selo da Frente Polisário.

Esse incidente não é nada novo. Em várias ocasiões, os rebeldes da Polisário, com o apoio da Argélia, tentaram ataques violentos, limitaram as ocupações ou paralisaram o tráfego internacional na área. A travessia do Saara pelo rally anual de automóveis Africa Eco Race já havia gerado especulações sobre as tentativas de bloqueio em 2019 e, de vez em quando, a Polisário alega a perseguição de garimpeiros ilegais ou traficantes de drogas para tentar penetrar na zona.

Zonas tampão sempre existiram. Instituídas pelo Concerto Europeu (Holanda, Escandinávia, Suíça), criadas por potências rivais (Espanha e Reino Unido em Gibraltar), estabelecidas pelas conferências de paz durante o Tratado de Versalhes (Renânia) e pela conferência de Genebra sobre o Vietnã, elas assumem a forma de uma zona desmilitarizada definida pelas partes (trégua de Tangku entre Japão e China em 1933, armistício de Panmunjom na Coréia em 1953), uma zona neutra , uma zona de segurança, uma zona protegida ou uma terra de ninguém (Faixa de Gaza). Com o objetivo de separar as partes de um conflito, a zona tampão é geralmente controlada por uma força de manutenção da paz, muitas vezes sob a responsabilidade da ONU, às vezes da OTAN, entre a Sérvia e Kosovo. Internas a um estado, podem resultar de uma ocupação (linha verde em Chipre), de um conflito interno (zona de distensão na Colômbia no âmbito das negociações com as FARC) ou mesmo de uma tentativa de secessão tal como a zona tampão que separa a Moldávia da auto-proclamada República da Transnístria.

Soldados sul e norte-coreanos se encarando na Zona Desmilitarizada no paralelo 38.

Para o jurista, elas levantam dois tipos de questões que dizem respeito às regras que regem a criação da zona tampão e às aplicáveis ​​dentro da zona tampão.

Como uma ferramenta de gestão de conflitos, essas zonas são frequentemente impostas como parte de um acordo de paz internacional. Elas tendem a resolver ou atenuar tensões políticas, militares e humanitárias complexas, que muitas vezes são duradouras. Elas podem então ser determinados de uma maneira convencional ou por uma instituição internacional para congelar um conflito de fronteira e as forças de segurança nacional das partes são excluídas. Poderes de intervenção também podem procurar impor tal solução para separar as partes ou isolar grupos incontroláveis, mas isso pressupõe o acordo dos Estados interessados.

A Zona Tampão de Guergarate

Finalmente, a zona tampão também pode consistir em um glacis criado por um Estado ao longo de suas fronteiras com o objetivo de proteger seu território contra incursões de tropas estrangeiras, grupos armados pagos por um Estado estrangeiro ou atividades de grupos rebeldes ou terroristas. É o caso da área de Guerguerate no Saara marroquino.

Para proteger o seu território, o Reino do Marrocos construiu um muro de areia, recuado da fronteira e estabeleceu voluntariamente uma zona tampão que recebeu a aprovação das Nações Unidas. Assim, o Marrocos participa tanto na gestão internacional da situação, como protege o seu território e as populações locais.

Guerrilheiras da Frente Polisário.

Nessas circunstâncias, a criação de uma zona tampão implica assegurar que a lei seja respeitada para os civis que nela residem ou que passam pela zona. Igualmente importante é garantir a segurança e a natureza neutra e desmilitarizada da zona tampão.

Sem dúvida, o direito internacional se aplica nesses espaços, em particular o direito humanitário no caso de uso de força armada, mas não resolve tudo. Não obstante, nestas áreas, por hipótese pacíficas, podem surgir questões jurídicas relacionadas com o direito civil, a propriedade, o tráfego, o direito penal e, em geral, a ordem pública. Na ausência de uma administração internacional, a prática reconhece uma certa competência no Estado cuja soberania territorial é afetada pelo estabelecimento de uma zona tampão.

Além disso, a manutenção da segurança ou, simplesmente, da tranquilidade pública na área pode justificar uma ação limitada para restaurar a ordem. A urgência, ausência ou fraqueza das forças internacionais permite ao exército ou à polícia nacional intervir para conter uma guerra de guerrilha ou restaurar a ordem. Assim, em 2000, a entrada do exército iugoslavo na zona tampão que separa a Sérvia do Kosovo para pôr fim às infiltrações da guerrilha albanesa.

Necessidade e proporcionalidade

Por analogia com a legítima defesa, a intervenção do poder territorial em causa na zona tampão está sujeita a duas condições: necessidade e proporcionalidade.

A necessidade é a base da competência do Estado para agir. Trata-se de um desmembramento da jurisdição territorial originária que o Estado exercia sobre a área que hoje constitui a zona tampão. As províncias do sul foram, desde tempos imemoriais, território do Império Xarifiano e depois do Reino do Marrocos; este último incluiu a questão do Saara, então ocupado pela Espanha, na agenda das Nações Unidas em 1963. Diante das atividades da Polisário, criada e utilizada pela Argélia desde 1973, o Marrocos, num espírito de consulta e para a manutenção da paz no seu território, criou a zona tampão sobre a qual, em consequência, renunciou temporariamente ao exercício da sua jurisdição territorial. Agora, sobre a zona tampão, essa competência é subsidiária e temporária.

Pacificadores da MINURSO no Saara Ocidental.

Neste caso, através da intervenção das FAR, o Marrocos exerceu uma jurisdição substituta para manter o caráter neutro e pacífico da zona sob o controle da MINURSO (Mission des Nations Unies pour l'Organisation d'un Référendum au Sahara Occidental) e para garantir a circulação num eixo de comunicação internacional. Não se tratava de fazer face a um risco ou de prevenir um ataque, mas de fazer face a uma situação presente e atual, na sequência de várias comunicações dirigidas, durante anos, pelas FAR à MINURSO, nas quais as forças marroquinas se incomodaram com a presença de civis e militares, com as incursões e provocações da Polisário [1]. No entanto, “devido à ausência de jurisdição”, nota o Secretário-Geral da ONU, “esta zona tampão entre os pontos de passagem marroquino e mauritano continuou a representar um certo risco para os observadores militares da MINURSO. , devido à falta de jurisdição na área, o que impede garantir a segurança da Missão”. [2]

[1] S/2020/938, Relatório do Secretário-Geral, 23 de setembro de 2020, pontos 29-31.

[2] Ibidem, ponto 46.

Soldados marroquinos e observadores internacionais no Saara Ocidental.

A intervenção das FAR ficou, portanto, limitada no seu objetivo, satisfazendo assim a condição da proporcionalidade. Por outro lado, o autor dos fatos que condicionaram a ação defensiva, a Polisário, é culpada. A defesa da zona tampão não implica exclusivamente agressão. Os "fatos-condições" que podem ser atribuídos a um ator não-estatal podem ser constituídos por atos limitados ou provocações, incursões, notadas no presente caso pela MINURSO e relatadas pelo Secretário-Geral.

Cabe, portanto, à Polisário acabar com as provocações e violações do direito internacional e dos direitos humanos na região, respeitar o estatuto da zona, "cooperar plenamente com a MINURSO, inclusive no que diz respeito à sua liberdade de interagir com todos os seus interlocutores e de tomar as medidas necessárias para garantir a segurança, bem como a plena liberdade de movimento” [3]. Compete ao Estado que inspirou a criação do movimento que é seu instrumento, a Argélia, retomar as negociações sob os auspícios da ONU, "sem pré-requisitos e de boa fé" [4] para pôr fim ao conflito artificial que criou e permitir ao Marrocos recuperar totalmente a sua integridade territorial.

[3] S/RES/2548 (2020) Resolução do Conselho de Segurança de 30 de outubro de 2020.

[4] S/RES/2494 (2019), resolução de 30 de outubro de 2019.

O Professor Jean-Yves de Cara é Presidente do Conselho Científico do Observatório de Estudos Geopolíticos (conseil scientifique de l’Observatoire d’études géopolitiques).

Leitura recomendada:

Capacetes Azuis Marroquinos: valores e compromissos1º de julho de 2020.

GALERIA: Com os Tirailleurs Marroquinos na Operação Aspic na região de Phu My, 14 de outubro de 2020.

Morreu Chuck Yeager, primeiro piloto supersônico da Força Aérea dos Estados Unidos

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 8 de dezembro de 2020.

Morreu ontem aos 97 anos o piloto de teste Chuck Yeager, da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), conhecido como "o homem mais rápido vivo". Yeager quebrou a barreira do som quando testou o avião X-1 em outubro de 1947. O feito seria anunciado ao público apenas em 1948.

Sua segunda esposa, Victoria, confirmou que Yeager havia falecido ao tuitar da conta verificada de Yeager que o ás da aviação havia morrido. “Uma vida incrível e bem vivida, o maior piloto da América”, ela tuitou 12 horas atrás. Seu legado também capturou as gerações posteriores, sendo apresentado no livro e no filme de 1983, "The Right Stuff" (Os Eleitos: Onde o Futuro Começa, título do filme no Brasil).

"Este é um dia triste para a América", disse John Nicoletti, amigo de Yeager e chefe da equipe. "Depois que ele quebrou a barreira do som, todos nós agora temos permissão para quebrar barreiras." Yeager passou por alguns desafios físicos nos últimos anos e teve uma queda que levou a complicações e outros problemas devido à sua idade. Yeager residia no norte da Califórnia, mas morreu em um hospital de Los Angeles. "Yeager nunca desistiu", comentou seu amigo Nicoletti. "Ele era um homem incrivelmente corajoso."

Nascido em 1923 e criado na Virgínia Ocidental, Yeager se alistou no Army Air Corps aos 18 anos em 1941 (a força aérea americana seria criada em 1947). Em 1943, Yeager foi comissionado oficial de vôo da reserva antes de se tornar um piloto no comando de caça da 8ª Força Aérea, estacionado na Inglaterra. Ao longo da Segunda Guerra Mundial, ele voou 64 missões e abateu 13 aviões alemães. “Muitos não sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Muitos não sobreviveram aos primeiros dias de testes de pilotagem”, explicou Nicoletti.

Yeager foi abatido sobre a França em março de 1944 em sua oitava missão de combate, mas conseguiu escapar da captura com a ajuda da resistência francesa, disse seu site. Ele voltou aos Estados Unidos em 1945 e se casou com sua esposa Glennis, para quem ele havia nomeado vários de seus aviões de combate.

Barricada da resistência francesa durante a Batalha de Paris, agosto de 1944.

Após a guerra, Yeager tornou-se instrutor de vôo e piloto de teste, trabalhando como oficial assistente de manutenção na Seção de Caça da Divisão de Teste de Vôo em Wright Field, em Ohio. As habilidades excepcionais de Yeager foram rapidamente reconhecidas e ele foi convidado a atuar em shows aéreos, bem como testes de serviço para novos aviões.

Em 1946, o Coronel Albert Boyd era o chefe da Divisão de Teste de Vôo e escolheu Yeager a dedo para ser um aluno na nova escola de pilotos de teste em Wright Field. Embora tivesse apenas o ensino médio, Yeager creditou seu sucesso no programa às suas habilidades de vôo. O Coronel Boyd escolheu Yeager para ser o primeiro a pilotar o Bell X-1 movido a foguete porque o considerava o melhor piloto 'instintivo' que já tinha visto e demonstrou uma capacidade extraordinária de permanecer calmo e focado em situações estressantes.

Após meses de vôos com o X-1, Yeager quebrou a barreira do som com sua aeronave, que chamou de Glamorous Glennis em 14 de outubro de 1947, sobre o Lago Rogers Dry, no sul da Califórnia. O X-1 alcançou Mach 1,06 ou 700 mph, tornando Yeager o primeiro homem a viajar mais rápido do que a velocidade do som e ganhando o título de "Fastest Man Alive" (O homem mais rápido do mundo).

Yeager alcançou considerável notoriedade na mídia depois que quebrou a barreira do som em Glamorous Glennis. Aqui ele posa com a atriz de televisão Barbara Eden, que desempenhou o papel principal na popularíssima série “I Dream of Jeannie" (Jeannie é um Gênio, no Brasil).

Yeager passou os anos seguintes continuando a testar aeronaves e ultrapassando os limites, estabelecendo o recorde de velocidade para uma aeronave de asa reta de Mach 2,44, em dezembro de 1953; sendo premiado com o Troféu Harmon Internacional de 1953 pelo presidente Dwight D. Eisenhower. Ele então voltou ao vôo operacional em 1954, assumindo o comando do 417º Esquadrão de Bombardeiros de Caça e sendo estacionado na Base Aérea Hahn na Alemanha, e depois na Base Aérea de Toul-Rosières na França. Em 1957, Yeager retornou à Califórnia e assumiu o comando do 1st Fighter Day Squadron em George AFB.

Ele se tornou comandante da Escola de Pilotos de Pesquisa Aeroespacial com o posto de coronel em 1962. Lá, ele presidiu o desenvolvimento de uma instituição inédita, projetada para preparar pilotos de teste militares americanos para vôos espaciais. Trinta e sete formandos desse programa foram selecionados para o programa espacial dos EUA, com 26 ganhando asas de astronauta voando nos programas Gemini, Apollo e Ônibus Espacial, disse o site. Ao longo da década de 1960, sua posição na Força Aérea o levou às Filipinas, Vietnã, Tailândia e Coréia.

Yeager se aposentou da Força Aérea com o posto de Brigadeiro-General (Brigadier General) em 1975, tendo voado 10.131,6 horas em cerca de 361 tipos e modelos diferentes de aeronaves militares ao longo de sua carreira.

Enquanto seu serviço oficial terminava, Yeager continuou a ser um consultor valioso para o governo e a indústria aeroespacial. Yeager foi uma das várias pessoas que apareceram no filme de 1983, "The Right Stuff", adaptado do romance de não ficção de Tom Wolfe sobre os primeiros 15 anos do programa espacial americano. Em 1997, aos 74 anos, Yeager comemorou o 50º aniversário do seu vôo histórico no X-1, voando em um F-15 Eagle.

Brigadeiro-General Chuck Yeager, colorização da artista Marina Amaral em 14 de outubro de 2017. (@marinamaral2)

"O General Yeager representa o melhor de nós. Para mim, Chuck Yeager sempre será o som da liberdade", disse seu amigo Nicoletti.

Vídeo recomendado:

Bibliografia recomendada:

Voando nas alturas.
(Leo Janos, Chuck Yeager, 1986, Ed. Best Seller).

Leitura recomendada:

ENTREVISTA: O 1° Grupo de Aviação de Caça nos céus da Itália13 de setembro de 2020.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

IMI Magal: carabina .30M1 de volta ao jogo


Por Ronaldo Olive, The Firearm Blog, 16 de outubro de 2017.

Tradução Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 6 de dezembro de 2020.

Embora nunca tenham sido um item oficial das Forças de Defesa de Israel, as carabinas M1 feitas nos EUA foram uma visão muito comum em todo o país por décadas. Amplamente distribuídas entre as forças policiais e unidades da Guarda de Fronteira/Guarda Civil, essas armas da Segunda Guerra Mundial também encontraram seu caminho para realizar tarefas de segurança em kibutzim* e outros assentamentos, tornando-se até mesmo uma presença frequente nas mãos de guias turísticos particulares. As razões por trás dessa popularidade foram muitas, incluindo o fato de que elas foram aparentemente fornecidas pelo governo dos Estados Unidos a baixo ou nenhum custo; eram armas confiáveis; e o cartucho .30M1 (ou 7,62x33mm), para o qual foram calibrados se mostrarem atraentes para uso em cenários urbanos imposição da lei de curta distância.

Renault R35 preservado onde foi atingido, próximo dos protões da Degania Alef. Ele foi destruído por um tiro de PIAT no alto da torre, com o buraco visível na foto.

*Nota do Tradutor: Kibutzim é plural de kibutz. Um kibutz é uma forma de coletividade comunitária israelita que foi tradicionalmente baseada na agricultura. Os kibutzim começaram como comunidades utópicas, uma combinação de socialismo e sionismo. Hoje, a agricultura foi parcialmente suplantada por outros ramos econômicos, incluindo fábricas industriais e empresas de alta tecnologia. Nas últimas décadas, alguns kibutzim foram privatizados e mudanças foram feitas no estilo de vida comunitário. Um membro de um kibutz é chamado de kibutznik (plural kibbutznikim ou kibbutzniks). O primeiro kibutz, estabelecido em 1909, foi a Degania, posteriormente Degania Alef, com um kibutz gêmeo Degania Bet. As duis Deganias são famosas por repelirem os ataques sírios com tanques franceses Renault R35 na Batalha do Vale Kinarot (15–21 de maio de 1948) durante a Guerra de Independência (1948-49). O famoso general israelense Moshe Dayan nasceu no Degania Alef em 20 de maio de 1915 e participou da batalha em 1948, comandando todas as forças israelenses nas Deganias. O primeiros dos Renault R35 sírios destruídos permanece na Degania Alef como monumento.

Com isso em mente, a IMI - Israel Military Industries (agora, IWI - Israel Weapon Industries Ltd.) decidiu, em meados da década de 1990, usar esta munição, bastante disponível e apreciada, para um derivado semi-automático do Fuzil de Assalto Micro Galil 5,56x45mm, também conhecido como MAR. As mudanças necessárias no design interno foram adicionadas ao Galil operado a gás (este, em essência, amplamente baseado no AK), incluindo não apenas um novo cano de 230mm (cinco ranhuras, à direita, taxa de torção de 1:20), mas um número de alterações no ferrolho/conjunto do ferrolho e mudanças dimensionais no sistema de gás para lidar com as pressões mais baixas (em comparação com a munição 5,56x45mm) geradas pelo cartucho .30M1. Embora o carregador da Carabina M1 original de 30 tiros pudesse ser usado, a IMI também oferecia uma unidade de 27 tiros totalmente compatível que mantinha o ferrolho aberto após o último tiro disparado.

O MAR de tiro seletivo 5.56x45mm que serviu de base para a carabina Magal .30M1 semi-automática.

Uma Carabina M1 com carregador mais curto de 15 tiros (2,6kg carregado) e um Magal da Polícia Militar do Pará com carregador de 27 tiros fornecido de fábrica (3,6kg carregado).

Fora isso, as mudanças foram principalmente no departamento estético/ergonômico. O receptor superior usinado todo em aço e cada parte do mecanismo de disparo foram alojados dentro de uma parte inferior de polímero de uma peça, que incluía a empunhadura de pistola, guarda-mato de tamanho completo, compartimento do carregador e guarda-mão, este apresentando um orifício abaixo do cano para o adição de uma lanterna. Para que conste, um Magal totalmente desmontado compreende 72 peças, sendo os procedimentos de desmontagem de primeiro escalão semelhantes àqueles da família Galil.

Meus arquivos antigos me dizem que um lote inicial de cerca de 1.000 dessas carabinas IMI foram entregues a agências policiais para uso nos conflitos israelense-palestinos de 1999-2000, mas muitos relatos negativos do seu uso em serviço começaram a voltar, incluindo falhas operacionais atribuídas ao cano muito curto que produziu pressão de gás insuficiente (piorou quando os acessórios de controle de distúrbios foram fixados ao cano) e superaquecimento do cano durante o fogo contínuo. Foi relatado que o fabricante planejou uma produção inicial de 4.000 armas, mas eu me pergunto se isso jamais chegou a ser concluído.

Duas carabinas Magal nas mãos de agentes da polícia israelense, por volta de 2000, além de uma arma do tipo M4 ao lado.

Com a coronha dobrada para a direita, o Magal tem 485mm de comprimento (740mm, comprimento total). A arma vista ao lado com a coronha estendida é equipada com um acessório adicional no cano para uso com munições anti-motim.

No entanto, o Magal também foi promovido no exterior. Que eu saiba, o único pedido de exportação confirmado veio da PMPA - Polícia Militar do Pará (Polícia Militar do Estado do Pará), que recebeu 555 exemplares em 2001 ou mais. Observe que o Magal já havia sido testado, aprovado e certificado (ReTEx No.1711/00. 8 de novembro de 2000) pelo Exército Brasileiro antes de sua adoção pelo PMPA. Este escriba teve a sorte de ter sido convidado para ir à cidade de Belém, capital do Estado do Pará, para um rápido encontro prático com a carabina israelense naquela época. Ah, sim: o Magal ainda é visto em uso ocasional hoje pelos policiais militares daquele estado da região da Amazônia.

O autor com um Magal do PMPA durante visita a Belém, no início dos anos 2000. A arma está equipada com uma mira reflexiva iluminada Meprolight MEPRO 21, dia e noite, na montagem Picattiny dianteira, além de uma lanterna no orifício do guarda-mão. Não me lembro da mira ter sido, de fato, adotada por aquela polícia militar.

A alavanca de manejo do lado direito é, no entanto, facilmente manipulada com a mão esquerda. O guarda-mato de mão inteira e o retém do carregador pressionável para frente são evidentes.

A alavanca seletora de tiro tipo AK na posição “Segura”.

O seletor duplicado no lado esquerdo, acima da empunhadura de pistola, agora está definido para “Fogo”.

A alça de mira com abertura em forma de L tem configurações para 150 (aqui) e 250 metros, com orelhas de proteção resistentes.

A massa de mira, igualmente bem protegida, possui uma pequena inserção de trítio para ajudar em situações de pouca luz.

Algumas centenas de cartuchos de ponta macia revestidos disparados sem interrupções em Belém me deram uma boa impressão geral sobre o Magal, não obstante os problemas relatados no texto.

A missão final da pouco conhecida carabina IMI Magal nas mãos de um agente da Polícia Militar do Pará. Ele é integrante da unidade de Motopatrulhamento (Patrulhamento de Motocicleta), um dos primeiros usuários locais da arma israelense.

FICHA TÉCNICA
Tipo: Carabina.
Miras: Alça tipo peep sight com regulagem para 150 e 250 metros.
Peso: 2,78 kg.
Sistema de operação: A gás com trancamento rotativo do ferrolho.
Calibre: .30 M1.
Capacidade: 15, 27 ou 30 munições.
Comprimento Total: 73 cm (coronha estendida)
Comprimento do Cano: 9 polegadas.
Velocidade na Boca do Cano: 600 m/seg
Cadência de tiro: Semi Automático.

Autor: Ronaldo Olive "Kid"


Ronaldo Olive é um escritor brasileiro de longa data (começando na década de 1960) sobre assuntos de aviação, forças armadas, imposição da lei e armas, com artigos publicados em periódicos locais e internacionais (Reino Unido, Suíça e EUA). Sua vasta experiência o tornou um palestrante convidado frequente e instrutor nas forças armadas e policiais do Brasil.

Bibliografia recomendada:

The M1 Carbine.
Leroy Thompson.

Leitura recomendada: