quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Os EUA precisam de uma estratégia melhor para competir com a China - caso contrário o conflito militar será inevitável


Por Sharon BurkeTask & Purpose, 11 de outubro de 2018.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de fevereiro de 2020.

Uma questão que define o século XXI é se uma terceira guerra mundial entre a China e os Estados Unidos é inevitável ou se esses possíveis adversários podem encontrar uma maneira de coexistir. Neste momento, os dois países parecem estar no caminho que leva ao conflito cinético*, mesmo quando as novas tecnologias estão mudando o caráter da guerra e o cenário de segurança global está mudando.

Esta cena é o resultado de um ataque de gás mostarda na Frente Ocidental em agosto de 1918, como testemunhado pelos artista americano John Singer Sargent.

*Nota do Tradutor: Ação militar cinética é um eufemismo para ação militar de guerra ativa, incluindo força letal. A frase é usada para contrastar entre força militar convencional e força "branda", como diplomacia, sanções e guerra cibernética. A palavra "Kinetic" foi um neologismo usado como um eufemismo retronômico para ação militar na obra Bush at War, um livro de 2002 de Bob Woodward. O Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, usou as palavras "cinético" e "não-cinético" com frequência.

Os Estados Unidos estão se aproximando desta nova era com um credo de "grande competição de poder", dando um lugar de destaque à letalidade militar. Na verdade, o Pentágono anseia por um inimigo real há algum tempo, do tipo que traz ordem à grande estratégia e a um mundo confuso. Mesmo assim, a transição cultural da GWOT para a Grande Potência* foi rápida. Acontece que um porta-aviões pode realmente pode proporcionar maior amplitude de movimento, mesmo que metaforicamente.

*NT: GWOT, Global War on Terror (Guerra Global ao Terror), que foi uma ameaça difusa e invisível, travada em pequenas unidades de formas onde o poder de fogo não é fator preponderante e as operações se arrastam por longos períodos; a própria antítese da cosmovisão americana, que sempre se voltou para a doutrina do combate a uma Grande Potência - convencional e claramente definida - em ações altamente tecnológicas, intensas e de curta duração.


Fuzileiros navais americanos lutando de casa-em-casa em Fallujah, 2004.

Uma mudança lenta, no entanto, é o conceito de “espaço competitivo”. Mesmo quando o Secretário Mattis aponta para a importância do espaço competitivo nos assuntos globais e a primazia do poder não-militar e das parcerias internacionais na formação desse espaço, os Estados Unidos estão concentrando seus investimentos em armas legadas e diplomacia de confronto.

Apesar das palavras inebriantes, na realidade este é um momento de distração estratégica para os Estados Unidos da América, atolado em divisões políticas em casa e batalhas regionais no exterior.



Um esforço de assinatura, a Iniciativa do Cinturão e Rota*, supostamente significa trilhões de dólares em melhorias de infraestrutura “ganha-ganha”** para cerca de 65 países, desde o Porto de Gwadar até o Canal do Panamá. Ao mesmo tempo, a China está investindo dinheiro em suas forças armadas e fazendo movimentos cada vez mais agressivos no Mar do Sul da China e em outros lugares. Tudo é construído sobre a base instável de um culto à personalidade agressiva e autocrática, mas ninguém diria que os chineses não têm foco estratégico.

*NT: A Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative) é uma estratégia de desenvolvimento global adotada pelo governo chinês em 2013, envolvendo desenvolvimento de infraestrutura e investimentos em quase 70 países e organizações internacionais na Ásia, Europa e África.

**NT: Expressão americana "win-win", quando os dois lados se beneficiam de um acordo. As tentativas de "ganha-ganha" com a China têm se mostrado elusivas, com a falta de comprometimento chinesa em honrar os acordos. O "ganha-ganha" foi classificado como o primeiro "ganha" é o fechamento do acordo pelos chineses, e o segundo "ganha" é quando os chineses passam a perna no outro lado.


Tropas russas na Criméia, 2014.

Neste momento não-auspicioso para uma associação de grandes potências, pode haver uma oportunidade para outros países desempenharem um papel construtivo e catalítico (a Rússia, ao contrário, parece determinada a desempenhar um papel destrutivo e impune). Se a opinião pública* é um indicador, existem três países com amplo apoio global: Alemanha, Canadá e Japão.

*NT: Segundo a fonte, a ordem é Canadá (61), Alemanha (59), Japão (56), França (52), Reino Unido (51), União Européia (48), China (41), Brasil (38). O artigo nota que dentre os maiores saltos estão o México (42 para 69%) e o Brasil (50 para 71%).

É claro que há ironia lá, dado que dois desses países estão a apenas uma geração de distância de serem os vilões da última guerra mundial. Talvez a Alemanha e o Japão tenham aprendido lições na derrota que hoje os posicionam melhor para um tipo diferente de liderança geopolítica, baseada mais em força econômica, diplomacia e ajuda externa do que em poder militar ofensivo. Jogar com suas forças como construtores de segurança, em vez de guerreiros, também posicionaria esses países para lidar com os desafios de segurança da última parte deste século, os quais não serão todos de natureza militar.

Talvez este seja um arco de civilidade que ajude a salvar uma ordem mundial liberal.



Nesse sentido, os Estados Unidos precisam de uma estratégia mais ampla. Embora um exército forte e modernizado seja um importante impedimento e contrarie uma agressão discreta, os Estados Unidos devem ter um plano para alcançar um estado final diferente da Terceira Guerra Mundial.

Se a Terceira Guerra Mundial for realmente inevitável, os Estados Unidos também precisarão de mais do que soluções e meios militares para prevalecer. Investimentos em uma economia e política fortes são cruciais. A base industrial, dos recursos naturais à pesquisa e desenvolvimento, aos bons empregos em um futuro automatizado, é um núcleo estratégico essencial, o qual a China reconhece claramente.

Finalmente, em guerra ou na paz, e em todos os tons de cinza intermediários, os Estados Unidos devem procurar cooperar novamente com parceiros globais, queria construindo interesses mútuos ou enfrentando inimigos e desafios comuns. Essa cooperação requer um envolvimento positivo com o mundo por meio do desenvolvimento, comércio, cultura, investimento e alianças e parcerias políticas e militares.

Isso significa uma estratégia abrangente, não apenas para vencer uma guerra, mas também para ganhar a paz - melhor ainda, para vencer sem lutar.

Original: https://taskandpurpose.com/americans-art-of-war

Sharon E. Burke é consultora sênior da New America, onde dirige o projeto Phase Zero. Ela atuou no Gabinete do Secretário de Defesa em 1994-2000, na equipe de Planejamento de Políticas do Departamento de Estado em 2002-2005 e como Secretária Adjunta de Defesa para Energia Operacional em 2010-2014.

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