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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

FG42: À frente do seu tempo e esquecida

Um Fallschirmjäger alemão posa com seu FG42 de um modelo inicial (Ausführung "C") na Normandia, França, 1944. As miras frontal e traseira estão dobradas para baixo e o bipé está rebatido contra a parte inferior do cano.

Por Mike Perry, SOFREP Magazine, 26 de abril de 2014.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 18 de setembro de 2020.

Em 1941, a Luftwaffe alemã, assim como o Exército, começou a perceber a necessidade de desenvolver uma arma para substituir o fuzil de ferrolho e a submetralhadora. Mas, enquanto o Exército buscava desenvolver um novo cartucho junto com suas armas, a Luftwaffe escolheu ficar com o cartucho de fuzil padrão de 7,92x57mm para atender a um requisito de capacidade de longo alcance e permitir que a arma atue como uma metralhadora leve. O que resultou foi a arma de combate mais exclusiva e avançado a ver ação na Segunda Guerra Mundial. E, no entanto, uma das quais poucas pessoas já ouviram falar.

No início, a Luftwaffe queria um fuzil que pudesse ser carregado por seus paraquedistas em vez de pousar separadamente em contêineres. Até então, as submetralhadoras e pistolas MP-38/40 eram as únicas armas portáteis com as quais suas configurações de pára-quedas permitiam um salto seguro.

Esquemática do pára-quedas RZ e o contêiner de armamento. (Velimir Vuksic/ Osprey Publishing)

A especificação, conhecida como LC-6, exigia um projeto que pesava aproximadamente o mesmo que o fuzil de ação de ferrolho K98, porém mais curto, onde não deveria exceder 39,4 polegadas (102cm). Era para ter seleção de tiro, disparando tiros únicos de um ferrolho fechado para melhor precisão, e ferrolho aberto para fogo automático a 900rpm permitindo melhor resfriamento. Os carregadores deveriam ser destacáveis, com capacidade para 10 a 20 tiros. Um encaixe de luneta era desejado, junto com miras de ferro dobráveis dianteiras e traseiras que poderiam ser usadas mirando por baixo da luneta. Finalmente, a arma precisava ser capaz de disparar todo o inventário de granadas de fuzil.

A arma parecia da era espacial para sua época. Operando por um método de pistão de curso longo, tinha 37,2 polegadas (94cm) de comprimento e pesava 9,3 libras (4,2kg) vazio. Ele tinha um grande freio-de-boca regulado anexado à extremidade do cano para atenuar o recuo, embora com o disparo automático usando um cartucho de tamanho grande seu efeito permanecesse marginal na melhor das hipóteses.

Dois fuzis FG42 com mira telescópica montada. O FG 42 superior é um Ausführung E/Tipo I, e o FG 42 inferior é um Ausführung G/Tipo III mais recente. (Fotografia tirada no Museu do Exército Brasileiro)

Para ajudar ainda mais no controlabilidade, ele incorporou um traçado em linha reta, o que significa que a coronha ficava nivelada com a alma do cano para ajudar a minimizar a elevação da boca do cano. No topo do seu receptor estava um telescópio removível tanto da série ZFG quanto da ZF-41, enquanto acoplado e montado abaixo do cano estava um bipé dobrável. A munição era alimentada do lado direito em um carregador tipo cofre e talvez a característica mais incomum de todas foi sua empunhadura de disparo, que estava em um ângulo agudo como nenhuma outra arma durante o conflito.

No início de 1943, Rhienmettal-Borsig começou a produção dos primeiros 2.000 para testes de combate, até que outra empresa, Heinrich Kriegoff, assumiu depois que a Rheinmettal se mostrou incapaz de produção em massa. Os paraquedistas geralmente favoreciam o projeto e o usaram em sua primeira ação de combate famosa* durante o assalto de planador nas montanhas do Gran Sasso, Itália, para resgatar o ditador deposto Benito Mussolini de um grupo guerrilheiro. Fotografias subsequentes mostram paraquedistas carregando a arma que, estranhamente, nunca disparou um tiro durante a ação, assim como nenhuma das outras armas de fogo. Nos meses seguintes, o fuzil foi empregado em pequenos números na Itália, até sua batalha mais famosa em Monte Cassino.

Seguindo o armistício italiano em setembro de 1943, Fallschirmjägers supervisionam o desarmamento de tropas italianas em Rome. O paraquedista em primeiro plano tem um FG42/I sobre o ombro enquanto o seu companheiro tem uma submetralhadora MP40.

*Nota do Tradutor: A primeira ação de combate do FG42 foi a Operação Achse (Eixo) de 8 a 19 de setembro de 1943, a invasão alemã da Itália após o armistício de Cassibile.

Fallschirmjäger lutando nas ruínas do Monte Cassino na Itália, 1944. Seu FG42/I está apoiado em uma caixa de granadas; os soldados usando esse fuzil frequentemente percebiam que apoios sólidos forneciam apoio melhor que o bipé integral.

De 17 de janeiro a 18 de maio de 1944, um grupo de pára-paraquedistas, muitos deles armados com o FG42, travou um ciclo de batalhas violentas nas ruínas de um antigo mosteiro no topo de uma colina chamada Monte Cassino, que dava para uma estrada solitária que levava a Roma. Apesar das árduas batalhas para desalojá-los, os paraquedistas se mantiveram firmes e só desistiram quando ordenados a evacuar*. O FG42 deu uma boa conta de si mesmo à medida que mais novos modelos da 2ª e 3ª edições chegavam, apresentando pequenos refinamentos como aumento de peso para 10,9 libras (4,8kg), redução da cadência para 750rpm e empunhadura em formato padrão.

*Nota do Tradutor: Isto se deu porque o Corpo Expedicionário Francês, contendo experientes montanheses goumiers, nativos do Marrocos, flanquearam a posição alemã no Monte Cassino, transpondo o rio Garigliano, e forçaram a linha de defesa alemã a recuar. Esse evento foi tratado pelo blog aqui.

Fallschirmjäger alemão em uma toca na Normandia no verão de 1944. Ele tem seu FG42 e duas granadas-de-mão.

O próximo uso generalizado do FG42 foi nas batalhas de sebes e na retirada em combate da Normandia após a invasão do Dia D em junho. O fuzil permaneceu em combate onde quer que o número cada vez menor de paraquedistas fosse empregado, até a rendição da Alemanha em 7 de maio de 1945.

Os exemplos entregues foram vistos com curiosidade pelos Aliados, que os testaram para aprender sobre suas qualidades salientes. Os Estados Unidos, por exemplo, fizeram um protótipo chamado metralhadora leve T44 alimentada por correia e usaram alguns de seus recursos para projetos futuros, como o M60. Além disso, a arma rapidamente desapareceu na história, principalmente porque era cara e nunca teve a intenção de preencher uma necessidade além das forças aerotransportadas. Ao todo, apenas cerca de 7.000 saíram da linha de produção.

Um soldado de infantaria americano exibe um FG42/I capturado. Observe a coronha distinta, que foi reduzida em modelos posteriores, além das dimensões compactas da arma em comparação com o soldado.

Uma arma especial destinada a homens especiais, os poucos em mãos privadas hoje recebem um prêmio de dezenas de milhares de dólares quando (raramente) são colocados à venda. Os museus mantêm punhados de outros espécimes, dando aos curiosos um vislumbre de uma das armas mais notáveis já feitas, para sempre apenas uma nota de rodapé no mundo das armas de combate.

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Gun Review: Uma análise aprofundada de um Sturmgewehr alemão18 de fevereiro de 2020.

FOTO: GI com um fuzil de assalto StG-44, 6 de julho de 2020.

Garands a Serviço do Rei18 de abril de 2020.

A submetralhadora MAS-385 de julho de 2020.

A metralhadora leve Chauchat: não é realmente uma das piores armas de todos os tempos11 de fevereiro de 2020.

Tentativas da Argentina de um fuzil indígena21 de abril de 2020.

Comandos Navais franceses com fuzis CETME23 de janeiro de 2020.

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domingo, 13 de setembro de 2020

ENTREVISTA: O 1° Grupo de Aviação de Caça nos céus da Itália

O dia 22 de abril de 1945 foi o dia com o maior número de missões de combate do 1º GAvCa, 44 missões de guerra destruindo mais de 100 alvos em um único dia, sendo celebrado até hoje no Brasil como o Dia da Aviação de Caça. (Arte de Gino Marcomini)

"O Brasil Brilhou!"

Eis o que afirma o major John W. Buyers, piloto que esteve com o primeiro grupo de caças brasileiros na Itália em 1944-45.

Major John William Buyers, 08 de janeiro de 1920 – 23 de abril de 2016.
(Foto de Lucas Pires)

John Buyers tem nome de norte-americano, mas nasceu em Juiz de Fora (MG) e morou até os 19 anos no Brasil. No entanto, teve formação militar nos EUA. Nacionalidade? Dupla: brasileira e americana. O Major Buyers, como é chamado hoje, foi um dos muitos pilotos de caça que estiveram na Segunda Guerra Mundial. Foi enviado para a Itália com os pilotos brasileiros. Na verdade, quando na Aeronáutica americana, em 1942, veio ao Brasil trazer aviões e acabou incorporado às forças armadas nacionais. Em contato com o pessoal brasileiro, fez amizades e, por falar português, seguiu junto para Aguadulce, Panamá, onde os pilotos tupiniquins foram treinados e, posteriormente, enviados à Itália. Como ele mesmo se definiu, era um "quebra-galho", mas, mesmo assim, fez missões aéreas e ajudou nas operações do esquadrão "Senta a Púa!", sobre o qual escreveu o livro "A História do 1º Grupo de Caça 1943/1945", lançado [em 2004]. Na entrevista [à revista] Conhecer Fantástico, o major fala sobre a experiência junto aos brasileiros e conta histórias vividas na Itália pelos pilotos da FAB.

Conhecer Fantástico: Como começou sua atuação junto ao Brasil na guerra?

John Buyers: Quando terminei o treinamento em aviação nos EUA, pediram sete voluntários que falassem espanhol. Meu nome já estava na lista, pois eles não sabiam a diferença do português para o espanhol. Pensávamos que iríamos para as Filipinas, mas acabamos no Rio de Janeiro.

O Senta Púa na Itália.

CF: Com qual intuito?

JB: A missão era transportar aviões para o Brasil A FAB tinha pouco mais de um ano, uns 200 pilotos e 200 oficiais administrativos e o país não tinha dinheiro para comprá-los. Mas os EUA precisavam enviar aeronaves para a Europa e a África e o caminho era pelo Nordeste brasileiro. Pelo Norte, não dava: com seis a sete meses por ano de mau tempo, perdiam-se muitos aviões. Então, fizeram um acordo com o Brasil, que permitiu que fossem construídas bases na região para os norte-americanos poderem operar. Essas bases foram estabelecidas no Amapá, em Belém, São Paulo Luiz, Fortaleza, Natal, no Recife, em Maceió e na Bahia, 25 no total. Era um movimento colossal nas bases. Em Natal, por exemplo, passavam até 300 aviões por dia indo para a África.

CF: Vieram e ficaram?

JB: Viemos num total de 10 aviões, com um piloto e um mecânico ou especialista em rádio. Ficamos no Recife, eu e mais dois pilotos, além dos mecânicos, porque os aviões mais avançados estavam todos lá. Foi quando resolveram organizar o primeiro grupo de caça, sob orientação dos norte-americanos, que substituíram os franceses quando estes voltaram para a Europa com o início da guerra.

CF: Como surgiu a idéia ou a necessidade de pilotos brasileiros irem à guerra?

JB: Os EUA queriam, naturalmente, que o Brasil se envolvesse na guerra porque buscavam implantar o sistema militar que lhes correspondesse, o que facilitaria numa futura guerra. Era essa a atitude norte-americana, mas Vargas não queria entrar no conflito. Foi forçado porque os alemães e italianos começaram a afundar navios brasileiros. O alemão considerou uma afronta o fato de o Brasil ter feito um contrato com o norte-americano de deixar os aviões passarem pelo país.

Militar brasileiro posando ao lado do famoso emblema "Senta a púa!".

CF: E dentro da sua convivência ali no Nordeste, o que o senhor via se a população brasileira estava esperando pela guerra?

JB: O Brasil não queria entrar na guerra. O Getúlio tinha uma opinião, ele dizia assim: "Em briga de cachorro grande, cachorro pequeno não entra". E considerava o país não-apto a entrar numa guerra. O que queria era tirar vantagem, ou seja, vender o que os países em conflito precisavam, como cristal de rocha que o Brasil exportou, e era muito necessário para a fabricação dos rádios.

CF: Qual foi o caminho dos pilotos brasileiros até a Europa em condições de combate? O senhor esteve com eles?

JB: Em primeiro lugar, fomos para o Panamá, para a base aérea de Aguadulce, onde havia uma escola de treinamento de pilotos de caça, que formava de 40 a 50 pilotos por mês. Lá, fizemos m treinamento em conjunto e foi aí que os pilotos brasileiros aprenderam o sistema norte-americano de vôo, treinamento intensivo de vôo rasante, bombardeio, carga, tiro ao alvo etc. O grupo avançado, composto por 10 ou 15 pessoas, acabou indo para Orlando fazer um treinamento para pilotos de caça, aprendendo as táticas utilizadas na Europa, na África e na Ásia.

O então Capitão John W. Buyers, da USAAF, era o oficial de ligação entre o 1° Grupo de Caça da FAB e os americanos.

CF: Chegando à Itália, os brasileiros estavam de fato preparados para a guerra?

JB: Foi uma surpresa para os norte-americanos que os pilotos brasileiros estavam não somente muito bem treinados, como também tinham tido treinamento e experiência aqui no Brasil sem a estrutura de aviação com que o norte-americano contava. Não se tinha mapas, rádios, nada. Costumo dizer que aprendi a pilotar na América do Norte, mas aprendi a voar no Brasil. O norte-americano que estava em combate pilotava, mas não sabia voar, e o brasileiro chegou sabendo pilotar e voar.

CF: Então, é verdade que os pilotos brasileiros eram muito bons tecnicamente?

JB: Vou dar um bom exemplo. Os brasileiros tiveram de se virar sozinhos, mas, como estavam bem-treinados e eram bons mesmo, organizaram-se e começaram a fazer missões, e os norte-americanos: "pô,  chegaram aqui hoje e já estão fazendo isso, destruindo aquilo, atirando naquilo...". Eles achavam que estávamos mentindo e, então, mandaram instalar uma máquina fotográfica especial nos nossos aviões. Quando o piloto brasileiro jogasse as bombas, ele tinha de passar por cima e fotografar o alvo para comprovar o que estava dizendo. Depois de uma semana, mandaram retirar as máquinas. Eles viram que era verdade.

CF: O senhor foi para a Europa basicamente, digamos, liderando o esquadrão brasileiro nessa ligação com as demais tropas aliadas?

JB: Minha função era quebrar galho. Se houvesse algo que estava atrapalhando, eu tinha que providenciar que aquilo fosse eliminado. Minha instrução era intermediar, pois ninguém queria norte-americano se metendo e criando caso com brasileiro. Quando chegamos, fui me apresentar ao comandante para informá-lo de que eu também era um oficial. Ele me olhou e disse: "Olha, eu só tenho tido problemas aqui e não pedi esse pessoal. Não quero mais problema por aqui". Level um choque e respondi: "O senhor não conhece os brasileiros, mas vou dizer uma coisa: um dia o senhor vai ter orgulho de os ter tido sob seu comando". Ele disse apenas "I hope so" (Espero que sim).

CF: Quando chegaram à Itália? Como foi o contato com o terreno de guerra?

JB: Chegamos em outubro de 1944 e o exército brasileiro já estava lá. Foi um choque para nós. Éramos jovens, cheios de idéias e não tínhamos a mínima noção do que era uma guerra. Quando chegamos num porto todo arrebentado, o navio não podia passar porque os alemães tinham afundado outras embarcações na passagem e colocado minas dentro. Tiveram de explodir as bombas para o navio passar, com apenas um metro de cada lado livre.

Limpeza de armamento em um P-47 Thunderbolt na Itália.

CF: E a guerra em si, o que se pode fizer da atuação dos pilotos brasileiros?

JB: Não há dúvidas de que o Brasil brilhou. Os norte-americanos desconheciam os brasileiros, mas não houve nenhum atropelo. No começo, naturalmente, estranharam, mas, quando perceberam que os brasileiros eram eficazes, empurraram para eles o que puderam. Uma vez, o grupo de caça brasileiro descobriu que uma tropa norte-americana já havia rompido as linhas do domínio alemão e estava a mais de 60 milhas dali. Os norte-americanos do exército não sabiam e estavam lá com os tanques atacando os próprios companheiros porque, por uma questão de posição, as montanhas interferiram nas comunicações de rádio e não foi possível avisar. O quartel general norte-americano não sabia que eles já tinham avançado e estavam mandando fogo. Foram os brasileiros que descobriram e avisaram.

CF: Os brasileiros salvaram os norte-americanos de um erro crasso, então?

JB: Foi um acontecimento fantástico. O coronel norte-americano que, logo de início, disse que não queria ter problemas com os brasileiros, me telefonou pedindo pra ir falar com ele e me disse: "Olha, jovem, estou satisfeitíssimo com os pilotos de caça brasileiros. É o melhor grupo que eu tenho, tanto que recomendei a Presidential Unit Citation para eles". Eu caí pra trás, não tem condecoração na força aérea norte-americana mais elevada do que essa, pois representa o presidente da república falando. Na época, foi negado porque era somente para a tropa americana, mas, 40 anos depois, em 1986, um comandante em Cabo Canaveral, amigo de meu irmão, a pedido meu, voltou a fazer a recomendação. O ex-presidente Ronald Regan assinou e o Brasil recebeu. Só duas unidades estrangeiras ganharam: uma inglesa* e a brasileira.

A PUC é representada simplesmente por uma barreta, sem medalha.

*Nota do Warfare: Os Esquadrões Nº 2 e 13, da Força Aérea Real Australiana foram condecorados com a Distinguished Unit Citation pelo seu serviço na área do Timor, de maio a outubro e de agosto a setembro de 1942, respectivamente. Apesar de ter sido concedida em outubro de 1942, a citação não foi oficialmente apresentada aos Esquadrões até maio de 1990. A Menção de Unidade Distinta (Distinguished Unit Citation) foi redesignada após a Segunda Guerra Mundial como Menção de Unidade Presidencial (United States Presidential Unit Citation, PUC).

CF: E como eram as missões realizadas pelos pilotos? E os alvos?

JB: Os norte-americanos decidiam e comandavam as missões, que eram distribuídas para o comandante do nosso regimento, o 350, que redistribuía entre os quatro grupos de caça que comandava - três norte-americanos e um brasileiro. Eram alvos estratégicos. Atuávamos para estrangular, mas não tínhamos nenhuma noção naquele tempo. Os inimigos só tinham um meio de trazer munição e suprimentos: por comboios. Então, íamos todos os dias atacar para impedir a chegada deles. Em determinado ponto, os alemães, em de vez de terem 200 ou 300 comboios chegando com munição, só tinham sete ou oito. Acabaram se rendendo.

CF: E combate aéreo, chegou a acontecer?

JB: Nós não tivemos, mas estou descobrindo agora com a história do 350 que o comandante norte-americano sabia que os alemães estavam atacando somente os aviões P-25, que bombardeavam as fábricas. Os P-25 eram muito mais perigosos para os alemães do que os caças. Então, eles estavam concentrando a defesa a esse tipo de ataque. Deram a nós a oportunidade de entrar em combate aéreo dando escoltas, mas os alemães nunca atacaram os brasileiros.

CF: Os brasileiros tinham algum jeito de lidar com a guerra, eram mais bem-humorados, tinham mais medo?

JB: Eles eram realmente bons. Jogavam bomba como todo mundo, mas usavam táticas diferentes às vezes. Em alvos de oportunidade, por exemplo, voavam um pouco mais baixo, a 100 pés. Quando se está mais baixo, é possível ver coisas camufladas que, de cima, não se enxerga. Esse era um dos nossos segredos.

CF: Depois da guerra, o senhor voltou ao Brasil?

JB: O comando norte-americano me ofereceu um grupo de caça no Pacífico, mas eu não quis. Já tinha tido minha experiência e queria vir para o Brasil. Pedi, então, pra ver se conseguia vir para o comando do Rio de Janeiro e voltei com os brasileiros de navio.

- Revista Conhecer Fantástico, pg. 42-43, 2004.

O emblema "Senta a púa!" exposto no National Museum of the U.S. Air Force (Museu Nacional da Força Aérea dos EUA) localizado na Base da Força Aérea de Wright-Patterson, em Dayton, Ohio.

Post-Script: Recomendação da Presidential Unit Citation (PUC) brasileira

A recomendação do Coronel Ariel Nielsen, comandante do 350th Fighter Group (350º Grupo de Caça), unidade a qual os brasileiros estavam subordinados durante a campanha na Itália. Ele escreveu em sua recomendação:

“Nas perdas que sofreram nessa ocasião, como também em muitos ataques anteriores, tiveram seu número de pilotos reduzidos à metade em relação às unidades da Força Aérea dos Estados Unidos. Porém, um número igual de surtidas, operando incansavelmente e além do normal no cumprimento do dever. A manutenção dos seus aviões foi altamente eficiente, a despeito das avarias sofridas pela antiaérea e o desgaste despendido na recuperação dos aviões. Este grupo entrou em combate na época em que a oposição antiaérea aos caças-bombardeiros estava em seu auge. Suas perdas têm sido constantes e pesadas e não têm recebido o mínimo de pilotos de recompletamento estabelecido. Como o número de pilotos cada vez diminuía mais, cada um deles teve que voar mais de uma missão diária, expondo-se com maior frequência. Em muitas ocasiões, como Comandante do 350th Fighter Group, eu fui obrigado a mantê-los no chão quando insistiam em continuar voando, porque eu acreditava que eles já haviam ultrapassado os limites de sua resistência física.”

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Experiências de Combate da Infantaria Brasileira na Itália24 de abril de 2020.

A Companhia de Fuzileiros na campanha da Itália27 de março de 2020.

VÍDEO: Batalha de Fornovo: a Rendição 148ª Divisão Alemã para a Força Expedicionária Brasileira12 de maio de 2020.

A FEB e os jipes12 de março de 2020.

O primeiro salto da América do Sul13 de janeiro de 2020.

Os Processos Políticos nos Partidos Militares do Brasil, 21 de janeiro de 2020.

Os Fuzileiros Navais na Revolução de 192431 de janeiro de 2020.

O jovem Góes Monteiro em Catanduvas31 de janeiro de 2020.

GALERIA: Manobras com o Sherman no Brasil, 195730 de janeiro de 2020.

GALERIA: Paraquedistas brasileiros em 195729 de janeiro de 2020.

GALERIA: O legado militar do Rio de Janeiro - O Forte de Copacabana3 de maio de 2020.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

A General Dunlop criou um ambiente tóxico no escritório do programa ultrassecreto, constata o IG

A Major-General Dawn Dunlop posa para uma foto na frente de um F-22 Raptor na Base da Força Aérea de Edwards, Califórnia, em 1º de fevereiro de 2019, durante a filmagem de um anúncio de recrutamento. Dunlop foi destituída de seu cargo como diretora do Escritório Central de Programas de Acesso Especial do Departamento de Defesa em maio de 2019. (Kenji Thuloweit / Força Aérea)

Por Stephen Losey, Air Force Times, 18 de agosto de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 19 de agosto de 2020.

A general de duas estrelas* que no ano passado foi demitida da chefia do escritório do Pentágono que supervisiona alguns dos programas mais secretos dos militares, repreendeu e depreciou publicamente seus subordinados, descobriu o Escritório do Inspetor Geral da Força Aérea.

*Nota do Tradutor: Trata-se do posto de Major-Brigadeiro na Força Aérea Brasileira.

A Major-General Dawn Dunlop também certa vez agarrou a mão de um subordinado sem consentimento e repreendeu-o por uma "questão pequena", disse o investigador do IG em um relatório de janeiro de 2020, obtido pelo Air Force Times por meio do Freedom of Information Act (Lei da Liberdade de Informação). Seu comportamento desrespeitoso e depreciativo - confirmado por cerca de 85 por cento das testemunhas entrevistadas - continuou mesmo depois que várias pessoas tentaram oferecê-la feedback, disse o relatório.

Dunlop foi destituída de sua posição como diretora do Escritório de Controle de Programas Especiais de Acesso, ou SAPCO, em 31 de maio de 2019, por Ellen Lord, a principal autoridade de aquisição do Pentágono, em meio a relatos de que ela havia criado um ambiente de trabalho tóxico. Dunlop agora atua como diretora de requisitos de capacidade operacional da Força Aérea.

Dunlop é uma piloto de caça inovadora que foi a primeira mulher a se tornar piloto de caça, pilotar um F-22 e comandar uma ala de teste. Ela é uma das pilotos de caça de mais alta patente da Força Aérea. Mas algumas semanas depois de assumir o escritório da SAPCO em agosto de 2018, testemunhas disseram que Dunlop começou a tratar os subordinados lá de forma desrespeitosa, de acordo com o relatório do IG. O tratamento depreciativo ocorria aproximadamente uma vez por semana, mas às vezes diariamente, disse o relatório.

Dunlop comumente rebaixava seus subordinados quando eles não correspondiam às suas expectativas, era uma seção de insultos não-profissional e regularmente insinuava que eles eram estúpidos, disseram testemunhas. Vários deles usaram termos como “ditatorial” e “ultrapassando o abusivo” para caracterizar seu estilo de liderança e a descreveram como tratando os subordinados como um pai repreendendo uma criança”.

Esse é o ambiente em que estávamos, nada nunca estava certo”, disse uma testemunha não-identificada.

Testemunhas também descreveram que Dunlop é uma oficial extraordinariamente talentosa e realizada que tinha boas intenções e queria que a Força Aérea tivesse sucesso. Ela acreditava que o SAPCO era uma organização quebrada que ela deveria vir e consertar.

Mas seu estilo de liderança fez com que várias testemunhas dissessem que perderam o respeito por ela e questionassem como ela havia alcançado o posto de major-general. Em uma declaração fornecida ao Air Force Times, o advogado de Dunlop, Gary Myers, sugeriu que os esforços de Dunlop para reformar o SAPCO levaram à reclamação do IG contra ela.

Ao longo de sua carreira, a Major-General Dunlop trouxe um claro senso de integridade, excelência e um forte desejo de servir aos aeronautas e à nação”, disse Myers. “Ela sempre esteve disposta a trabalhar com outras pessoas, para assumir mudanças difíceis onde necessário, para entregar resultados em apoio a esses valores”.

Depois de ter sido designada para liderar o SAPCO, “ela se esforçou para identificar e realizar ações para melhor alinhar o empreendimento do SAPCO com as prioridades da Secretaria de Defesa e as necessidades da comunidade SAP”, continuou Myers. “Sua implementação desses esforços resultou em uma reclamação do inspetor-geral em maio de 2019. As alegações do IG e o relatório de investigação não refletem quem ela é como pessoa, seus valores ou seu serviço dedicado de mais de 30 anos”.

Myers disse que Dunlop está grato pelo fato da Força Aérea ter considerado sua resposta ao lado do relatório do IG ao decidir permitir que ela continuasse servindo. Dunlop “obteve uma visão e perspectiva inestimáveis com esta experiência e ao ler os sentimentos de outras pessoas claramente expressos no relatório do IG”, disse Myers. O relatório lista vários incidentes em que Dunlop repreendeu publicamente os subordinados, incluindo chamar o trabalho de alguém de "merda" no meio de uma reunião e denegrir publicamente a qualidade de escrita das pessoas.

Seu comportamento esmagou o moral no SAPCO, disse o relatório. Várias pessoas começaram a ter problemas no trabalho, incluindo “ter medo”, perder o sono, demitir-se ou pensar seriamente em se demitir e não querer falar nas reuniões de equipe. Algumas pessoas tremeram fisicamente de medo quando tiveram que lidar com Dunlop, disse uma testemunha. As pessoas também se retiraram das reuniões semanais de um grupo de trabalho de altos funcionários dos Programas de Acesso Especial para evitar provocar sua ira.

Dunlop presidiu o Grupo de Trabalho Sênior do SAP, que incluiu diretores dos SAPCOs dos outros serviços. Mas uma testemunha não identificada disse que, devido à forma como Dunlop agiu nas reuniões, os membros começaram a falar menos por medo de provocar uma confrontação com ela. A testemunha chamou Dunlop de "lutador premiado" que adorava "estar no meio do ringue e... trocar socos". 

Outros membros começaram a enviar seus subordinados ou deixaram de vir inteiramente. Várias testemunhas disseram que tentaram falar com Dunlop sobre a forma como ela agia nas reuniões e o clima no escritório do SAPCO, mas não a acharam receptiva ao feedback. "Ela não mudou seu comportamento", eles disseram.

O estilo de liderança de confronto de Dunlop atingiu o ponto de ebulição em 4 de janeiro de 2019, quando ela agarrou a mão de uma subordinada chocada, sem sua permissão, para chamar sua atenção durante uma disputa sobre seu calendário e um visitante que entrava para tomar um café.

A subordinada disse aos investigadores que Dunlop “simplesmente enlouqueceu” quando descobriu que um visitante, com quem Dunlop tinha um encontro marcado para o café, iria primeiro passar pelo seu escritório. Dunlop repreendeu a subordinada por não ter contado a ela que o visitante estava chegando e disse que temia que o visitante visse as paredes nuas em seu escritório e cabides tortos e papéis em sua mesa.

A subordinada disse aos investigadores que olhou para a programação de Dunlop para chamar sua atenção para uma mudança e Dunlop agarrou sua mão e a apertou "como uma criança para chamar minha atenção". A altercação foi testemunhada por várias pessoas, que disseram aos investigadores que Dunlop levantou a voz e disse à subordinada: “Olhe para mim, olhe para mim, por favor”.

A subordinada disse que enquanto ela estava chocada, Dunlop não agarrou sua mão com força. E testemunhas disseram que Dunlop não parecia ter a intenção de ferir ou assustar a subordinada, embora tenham ficado surpresos. Um funcionário do SAPCO ligou para a Agência de Proteção da Força do Pentágono para relatar o incidente na semana seguinte.

Dunlop disse aos investigadores que foi pega de surpresa, que a visita estava para acontecer e, quando a subordinada continuou a olhar o calendário, ela parecia "perdida em pensamentos". Dunlop negou ter apertado a mão da subordinada e disse que ela a tocou por cinco segundos no máximo. Ela negou que estava com raiva e descreveu isso como um “toque muito breve”, “leve”, que ela não considerou desrespeitoso.

Várias testemunhas disseram que foi “completamente inapropriado” e “impróprio” para um oficial-general como Dunlop colocar a mão em um subordinado daquele jeito. “Se fosse um general do sexo masculino, a sua carreira poderia acabar naquele dia... se ele tivesse agarrado uma senhora de 115 libras (52kg) daquela forma”, disse uma testemunha.

O IG concluiu que o confronto de Dunlop com sua subordinada, sobre uma questão pequena, "comprometeu sua posição como oficial" e fez sua subordinada se encolher em estado de choque. Seu comportamento foi indecoroso e violou as regras que impedem a conduta imprópria para um oficial.

O investigador do IG contatou o Escritório de Investigações Especiais sobre este incidente para ver se uma investigação criminal em potencial agressão era justificada, mas o OSI decidiu não prosseguir com o assunto.

Em maio de 2019, Dunlop provocou outra oficial superior a sair desabaladamente de uma reunião em lágrimas. Dunlop ficou irritada porque três oficiais da Força Aérea compareceram a uma reunião para preparar slides para informar líderes militares superiores, mas Dunlop achou que era necessário apenas um apresentador da Força Aérea.

Dunlop continuou provocando uma oficial superiora não-identificada repetidamente e em um grau desconfortável, embora tenha sido dito para ela deixar o assunto de lado. A oficial superior chorou de raiva e disse a Dunlop que eles eram seus pares, e Dunlop não deveria falar com ela dessa forma novamente, disse o relatório.

Mas Dunlop continuou empurrando a questão de uma forma “zombeteira”, como uma testemunha descreveu, até que a oficial superiora se levantou e saiu furiosa. Testemunhas disseram que foi especialmente estranho, porque majores estavam na sala e estavam tendo a impressão de que essa era uma conduta aceitável de um general.

Em um relatório separado do IG, datado de novembro de 2019, Said fundamentou uma alegação de que Dunlop indevidamente fez seus subordinados prestarem serviços pessoais para ela enquanto servia como comandante de Alerta e Controle Antecipado Aerotransportado da OTAN na Base Aérea da OTAN de Geilenkirchen, na Alemanha, de 2016 a 2018.

Os subordinados ajudaram Dunlop trocando os pneus de verão por pneus de inverno, e vice-versa, em seu veículo pessoal quatro ou cinco vezes, bem como trocando o óleo e fazendo arranjos pessoais de hospedagem. Quando Dunlop estava se transferindo de volta para os Estados Unidos em agosto de 2018, um subordinado ajudou Dunlop a enviar seu carro de volta, dirigindo-o até que queimasse combustível suficiente para se qualificar para o transporte, e também vendeu seus pneus de inverno para ela.

Dunlop disse aos investigadores que não considerou oferecer pagamento ao subordinado por seu trabalho, anunciando e vendendo os pneus de inverno após o expediente, porque os pneus eram um requisito exclusive para ficar estacionado em Geilenkirchen. O relatório do IG concluiu que ter subordinados fazendo essas tarefas pessoais para ela era uma violação dos regulamentos de ética do Departamento de Defesa e parte de um “padrão de uso indevido de pessoal” durante seu comando na Alemanha.

Em sua declaração, Myers disse que Dunlop lamenta ter aceitado esses serviços de seus subordinados, e disse que foram violações não-intencionais. A necessidade de trocar e depois vender pneus de inverno eram “requisitos exclusivos daquele ambiente”, disse Myers.

Ela está empenhada em incorporar essas lições aprendidas à medida que avança em sua posição atual”, disse Myers.

Stephen Losey cobre questões de liderança e pessoal como repórter sênior do Air Force Times. Ele vem de uma família da Força Aérea e seus relatórios investigativos foram premiados pela Society of Professional Journalists. Ele viajou ao Oriente Médio para cobrir as operações da Força Aérea contra o Estado Islâmico.

Bibliografia recomendada:



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terça-feira, 4 de agosto de 2020

Helicópteros de ataque australianos resgatam náufragos em uma ilha deserta no Pacífico


Por Jamie (The Drive)The Warzone, 3 de agosto de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 4 de agosto de 2020.

Com um SOS feito na areia, o navio de assalto HMAS Canberra agiu com seus helicópteros Tigre para salvar marinheiros isolados.

O ARH Tigre da Airbus Helicopters pode não ter recebido muito amor do exército australiano ultimamente, mas o helicóptero de ataque foi uma visão muito bem-vinda no fim de semana para um grupo de marinheiros que ficaram isolados em uma pequena ilha da Micronésia por quase três dias. Em uma cena digna de Hollywood, uma mensagem SOS soletrada na praia foi avistada por tripulações australianas e americanas, antes que um helicóptero voando de um navio de guerra australiano prestasse em socorro.

Quatro ARH Tigres e um único helicóptero de transporte MRH90 Taipan da Airbus Helicopters estavam a bordo do navio anfíbio HMAS Canberra da Marinha Real Australiana (Royal Australian NavyRAN) e entraram em ação para ajudar a encontrar os três marinheiros.

Depois de partirem no seu barco de 23 pés em 30 de julho de 2020, os marinheiros saíram do curso e ficaram sem combustível. Eles foram encontrados desaparecidos em 1º de agosto e foram localizados no dia seguinte na Ilha Pikelot, a quase 320 quilômetros de seu ponto de partida em Pulawat, na Micronésia. O destino planejado deles era os atóis de Pulap, uma jornada de 23 milhas náuticas.

Os três náufragos na praia, junto com o barco e o SOS.

Indo para a área de busca, o Canberra se uniu a aeronaves dos EUA para localizar os marinheiros. Um ARH Tigre embarcado do 1º Regimento de Aviação do Exército Australiano entregou comida e água diretamente à praia, antes de realizar exames de saúde nos náufragos.

O Canberra recentemente atuou na região como parte do Grupo-Tarefas 635.3, que realiza um Desdobramento de Presença Regional, sobre o qual você pode ler mais neste relatório anterior do Zona de Guerra. Quando o navio de assalto foi chamado para ajudar na busca e salvamento, ele estava realmente voltando para a Austrália, enquanto outros navios do grupo-tarefa se preparavam para participar do Exercício Orla do Pacífico (Exercise Rim of the Pacific, RIMPAC), próximo ao Havaí.


"A companhia do navio respondeu à chamada e preparou o navio rapidamente para apoiar a busca e salvamento", disse o capitão Terry Morrison, comandante do Canberra. “Em particular, nosso helicóptero MRH90 embarcado no esquadrão nº 808 e os quatro helicópteros de reconhecimento armado do 1º Regimento de Aviação foram fundamentais na busca matinal que ajudou a localizar os homens e a entregar suprimentos e confirmar seu bem-estar”.

"Estou orgulhoso da resposta e profissionalismo de todos a bordo, pois cumprimos nossa obrigação de contribuir para a segurança da vida no mar, onde quer que estejamos no mundo", continuou ele.

Os marinheiros deveriam ser apanhados por um navio de patrulha da Micronésia, o FSS Independence, um barco de patrulha do Pacífico entregue e apoiado pelo governo australiano.

Tigre pousando no HMAS Canberra durante o show aéreo Biennial IMDEX em Cingapura, 16 de maio de 2019.

Enquanto o ARH Tigre e o MRH90 desempenharam seu papel nesse resgate dramático, é justo dizer que os dois tipos tiveram fortunas mistas no serviço australiano. A Austrália encomendou 47 MRH90 Taipan MRH para substituir os helicópteros Black Army Hawk e RAN Sea King Mk 50A/B do Exército Australiano. O exército e a marinha mantêm os MRH90 como uma base comum, mas seis aeronaves são atribuídas ao esquadrão nº 808 da RAN, com sede em Nowra, Nova Gales do Sul. Problemas técnicos e de confiabilidade viram o Taipan ser adicionado à lista de "Projetos de preocupação" do governo australiano.

A Austrália escolheu o Tigre para cumprir seu requisito de helicóptero de reconhecimento armado em 2001, adquirindo 22 exemplares. Enquanto os dois primeiros foram entregues em dezembro de 2004, a capacidade operacional final (final operational capabilityFOC) foi alcançada apenas em abril de 2016. O Tigre australiano participou de uma missão no exterior pela primeira vez no ano passado, quando quatro exemplares foram levados de avião para Subang, na Malásia, em um C-17A da Força Aérea Real Australiana, antes de embarcar em exercícios de treinamento a bordo do Canberra.

Tigres do exército australiano a bordo do HMAS Canberra.

No ano passado, o Departamento de Defesa Australiano emitiu um pedido de informações (request for information, RFI) para uma substituição do ARH Tigre no âmbito do programa Land 4503. Isso exige capacidade operacional inicial (initial operational capability, IOC) em 2026 com 12 estruturas aéreas e capacidade operacional total dois anos depois com 29 helicópteros. Os principais candidatos para o Land 4503 são o Bell AH-1Z Viper, o Boeing AH-64E Apache e os Airbus Helicopters Tigre Mk III aprimorados.

Enquanto isso, provavelmente veremos o ARH Tigre continuar operando a partir dos navios de assalto da classe Canberra em seu papel de ataque tradicional - além de outras missões, quando necessário. Os Tigres australianos também pousaram no porta-aviões USS Ronald Reagan durante exercícios recentes, sobre os quais você pode ler mais aqui.


O último episódio na Micronésia não foi a primeira vez que helicópteros de ataque apoiaram operações de resgate de maneiras não-tradicionais. Em junho deste ano, surgiu o vídeo de um Tigre do Exército Francês que foi usado para evacuar dois soldados gravemente feridos quando o helicóptero Gazelle foi abatido por insurgentes em 14 de junho do ano passado, perto da fronteira entre Mali e Níger.

Embora o Tigre tenha falhado em se tornar uma história de sucesso nas forças armadas australianas, sem dúvida se tornou o favorito de três marinheiros em particular, cujas emoções só podem ser imaginadas quando os helicópteros de ataque apareceram à vista.

Bibliografia recomendada:

Flying Tiger:
International Relations Theory and the Politics of Advanced Weapons.
Ulrich Krotz.

Leitura recomendada:

sexta-feira, 19 de junho de 2020

O Exército Francês recebeu os três primeiros mini-drones Thales SMDR de reconhecimento

Mini-drone Thales SMDR Spy'Ranger.
(Ministère des Armées)

Do site Army Recognition, 16 de junho de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 19 de junho de 2020.

“Nossa estratégia prevê o fortalecimento de funções-chave, como inteligência. Esses drones são uma de suas encarnações. Ágil, eficiente e fácil de usar, sua chegada às nossas forças armadas é uma excelente notícia e uma tradução adicional dos esforços para revigorar nossos exércitos no âmbito da Lei de Programação Militar. Feito na França pela Thales”, acolheu Florence Parly, ministra dos exércitos franceses na recepção do SMDR pela Direção Geral de Armamento (DGA).

Entregues ao Exército Francês, esses primeiros SMDRs fortalecerão significativamente seus recursos de detecção, reconhecimento e identificação o mais próximo possível da zona de contato. De acordo com a Lei de Planejamento Militar (Loi programmation militaireLPM) 2019-2025, 10 outros sistemas de mini-drones de reconhecimento devem ser entregues até o final de 2020.

Um militar francês da Operação Barkhane guardando um drone Reaper em Niamey, no Níger, em de 14 de março de 2016. (Pascal Guyot/ AFP)

Após as operações de verificação realizadas no site da Thales em Elancourt e no site da DGA Techniques, a DGA acaba de autorizar a entrega da Thales ao Exército Francês dos três primeiros mini-drones de reconhecimento designados SMDR (systèmes de mini-drones de reconnaissance/sistemas de mini-drones de reconhecimento). Com o objetivo de garantir missões de detecção, reconhecimento e identificação, eles são capacitados no sistema DRAC (drone de inteligência de contato) em serviço desde 2008. Entregue à Seção Técnica do Exército Francês (Section technique de l'Armée de terre, STAT) para ser testado pelo pessoal operacional, eles serão desdobráveis em operação até o final de 2020. Eles serão operados pelas seções de mini-drones das baterias de aquisição e vigilância dos regimentos de artilharia e pelo 61º Regimento de Artilharia (61e Régiment d'Artillerie61e RA). Duas vezes mais poderoso que seu antecessor, esse novo sistema de mini-drone permitirá ao Exército francês fortalecer sua capacidade de inteligência o mais próximo possível da zona de contato.

O SMDR consiste em três drones Spy'Ranger idênticos e uma estação terrestre. Equipado com uma bola optrônica de alta definição, trabalhando dia e noite, ele oferecerá maior desempenho de detecção, reconhecimento e identificação. Com uma envergadura de quase 4 metros e um peso de 15kg, o drone tem autonomia de cerca de 2:30h.


O sistema é desdobrado em 12 minutos por uma equipe de duas pessoas (instalação da plataforma de lançamento, montagem do drone, inicialização da estação terrestre e realização de testes antes da decolagem). Graças ao seu link de dados do estudo ELSA* a montante, o drone pode transmitir fluxos de vídeo de alta definição em tempo real, de maneira confiável e segura até 30km da estação terrestre.

*ELSA: Study and demonstration of a universal data link of autonomous air-land systems/ Estudo e demonstração de um link universal de dados de sistemas aéreos-terrestres autônomos.

O LPM 2019-2025 prevê a entrega de 10 outros sistemas de mini-drones de reconhecimento antes do final de 2020. O exército terá uma frota de 35 sistemas até 2021. Esses sistemas receberão suporte em termos de treinamento, logística e manutenção para 10 anos.

Bibliografia recomendada:


Leitura recomendada:






O Estilo de Guerra Francês12 de janeiro de 2020.


sexta-feira, 1 de maio de 2020

COMENTÁRIO: Confissões de um estrategista fracassado - Parte 1


Pelo Coronel Jobie Turner, War Room, 5 de novembro de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 1º de maio de 2020.

Esta é uma estratégia para a elaboração de um orçamento? Por lutar em um ambiente futuro? Ou foi projetada para fornecer diretrizes e políticas internas?

No Pentágono, todos se imaginam estrategistas. Todo graduado em educação militar profissional, todo contratado com um novo sistema de armas, todo think tank* ou especialista de consultoria: todos acham que, se tivessem a chance, poderiam impor a ordem com a "grande idéia" certa. Enquanto isso, na esquina da praça de alimentação, os "programadores” sorriem, contentes em sua opinião de que os orçamentos que constróem são a verdadeira estratégia. A suposição compartilhada comum a todos é que as estratégias escritas têm o potencial de manter, alterar ou até revolucionar uma força ou as forças armadas como um todo.

*Nota do Tradutor: Um "think tank" é um corpo de especialistas suprindo conselhos e idéias sobre problemas específicos, como política ou economia, assim como estratégia.


De 2016 a 2018, trabalhei na divisão de estratégia de longo prazo no estado-maior do Quartel-General da Força Aérea. Assim, tive a oportunidade de testar minhas próprias pretensões estratégicas como parte da equipe que tentava elaborar um documento estratégico de longo alcance para conduzir as decisões orçamentárias da força.

A estratégia que produzimos nunca chegou à publicação oficial. Apesar de um consenso geral entre oficiais, funcionários públicos e contratados do Estado-Maior Aéreo, seria valioso ter uma estratégia para organizar, treinar e equipar a Força Aérea do futuro. Além disso, havia um excelente pensamento estratégico incluído no documento e apoio de toda a cadeia de comando.

Na orgulhosa tradição do relatório de vôo, este é o primeiro de uma série de quatro artigos tentando tirar as lições aprendidas dessa experiência e passá-las para a profissão mais ampla das armas. Enquanto minha experiência foi no Estado-Maior Aéreo, essas idéias se aplicam amplamente a qualquer força ou tentativa conjunta de produzir um documento estratégico sancionado pela liderança e projetado para liderar a organização, o treinamento e o equipamento da força.

Um problema de definição e interesses

Como afirma Steven Wright, "o estrategista deve pensar no contexto e na definição de problemas". Em outras palavras, o estrategista precisa responder: "Por quê?" Para uma estratégia da força, isso exige que a equipe de redação se depare com duas questões fundamentais: qual das muitas definições possíveis de estratégia estava no centro do projeto e qual é o objetivo do documento estratégico? A estratégia é a “série de conveniências” do marechal de campo prussiano Helmuth von Moltke, a “vantagem contínua" do estrategista moderno do Everett Dolman, “o uso do engajamento para os propósitos da guerra” do teórico Carl von Clausewitzou, ou o catecismo mais banal da educação militar profissional “alinhar fins, caminhos e meios”? E em relação ao que a estratégia pretende fazer. Esta é uma estratégia para a elaboração de um orçamento? Por lutar em um ambiente futuro? Ou foi projetado para fornecer diretrizes e políticas internas? 

Para complicar o processo de definição, existem muitos interesses dentro da grande organização de um serviço militar. Com o potencial de uma estratégia para manter, alterar ou revolucionar o curso, haverá intenso debate, discussão e desacordo sobre sua criação. Perguntas sobre quem, onde, o que, quando e por que (who, what, where, when, and why, 5Ws) do documento estratégico virão de todos os cantos para incluir outras forças e tribos internas (por exemplo, forças aéreas de combate; forças aéreas de mobilidade; inteligência, vigilância e reconhecimento). Com a competição de alto risco, o processo de desenvolvimento estratégico pode se transformar em uma metáfora para o que, em Essence of Decision (A Essência da Decisão, 1999), Graham Allison e Philip Zelikow chamam de comportamento do Modelo III; ou, em termos simplistas, "onde você está depende de onde você está sentado". Nesse tipo de comportamento, as organizações baseiam suas escolhas em interesses internos, e não em objetivos estratégicos.

A Essência da Decisão: Explicando a Crise dos Mísseis Cubanos, 1999.

Tomados em conjunto, esses problemas de definição e interesses internos do Estado-Maior Aéreo dificultaram a criação da estratégia. No nosso caso, o documento estratégico tornou-se uma imagem espelhada das opiniões daqueles a quem informamos. Por exemplo, oficiais e civis que lidam com o orçamento sempre circulavam em torno de uma discussão sobre como o documento poderia moldar futuras despesas de dinheiro. Esse processo se repetiu com cada organização e resultou em um grande tempo e comprometimento intelectual gasto em definição e educação, em vez de idéias e conceitos. Além disso, cada organização tinha sua própria visão do que deveria estar no documento e como deveria ser estruturado, o que às vezes fazia com que parecesse um prato preparado por cozinheiros demais.

Em retrospecto, uma abordagem melhor seria dedicar mais tempo a quem, o que, onde, quando e por quê. Como o documento enfrentou essas mesmas perguntas a partir de seu rascunho inicial, deveria ter sido uma indicação de que não possuía uma base sólida. Em vez de mergulhar imediatamente na redação do documento, definir primeiro os 5Ws abriria mais caminhos para falar sobre as idéias e conceitos e também resultaria em mais adesão do Estado-Maior Aéreo. A redação do documento deveria ter sido seguida posteriormente. Parece simples, mas Simon Sinek está certo: comece com o porquê.


"Portanto, tanto quanto um secretário, chefe ou estado-maior de força gostaria de traçar seu próprio "Por quê", muito do que eles devem fazer foi definido por outros."

Contra a estratégia

Além dos problemas de definição, uma estratégia de força também precisa lidar com as forças externas da política e do orçamento. Os requisitos políticos e orçamentários definem, direcionam e às vezes restringem o que uma força pode fazer.

Embora seja difícil imaginar suas responsabilidades e a amplitude de controle, nos níveis políticos mais altos do governo dos Estados Unidos, os secretários das forças e seus chefes são baixos na hierarquia. O presidente, o secretário, o vice e os subsecretários de defesa, o presidente e (em menor grau) o vice-presidente do Estado-Maior Conjunto (Joint Chiefs of Staff, JCS), e os comandantes combatentes, todos têm maior pedigree e cachê político. A Estratégia de Segurança Nacional do Presidente, a Estratégia de Defesa Nacional do Secretário de Defesa, a Estratégia Militar Nacional do Presidente do Estado-Maior Conjunto, juntamente com inúmeros documentos de orientação e análises do Gabinete do Secretário de Defesa e do Estado-Maior Conjunto, fornecem grande parte das informações gerais descrição do ambiente internacional e do local dos departamentos dentro dele. Com essa orientação abrangente, o "porquê" das forças já está definido.


Adicionado às restrições políticas, qualquer estratégia projetada para impulsionar o orçamento terá que competir com os locais por toda a ação do estado-maior - o Memorando Objetivo do Programa (Program Objective MemorandumPOM). Os atores externos podem ter uma influência ainda maior através dos orçamentos do que no campo da política. O Congresso, o Gabinete de Administração e Orçamento, e o Gabinete do Secretário de Defesa não apenas definem o orçamento geral da “linha de frente” para as forças, mas também fornecem frequentemente detalhes bastante específicos sobre como o dinheiro apropriado deve (ou não) ser gasto. O perigo para qualquer documento estratégico é que ele possa traçar um caminho contrário a essas restrições orçamentárias. Por exemplo, um líder do congresso pode ver a estratégia como um desafio para um determinado sistema de armas que fornece emprego em seu distrito.

Assim, tanto quanto um secretário, chefe ou estado-maior de força gostaria de traçar seu próprio "Por quê", muito do que eles devem fazer foi definido por outros. No nosso caso, a criação da nova Estratégia Nacional de Defesa sob o Secretário Mattis e as implicações para o orçamento futuro do Departamento de Defesa restringiram bastante o processo interno de elaboração de estratégias para a Força Aérea. Como todo o Pentágono teve que lidar com as implicações de conflitos de grandes potências e uma mudança de prioridades, o mesmo aconteceu com a Força Aérea.

Abandonando a Estratégia: Precedente Histórico

Apesar do fascínio por uma força de dar pelo menos peso retórico à sua declaração de princípios organizacionais, chamando-a de estratégia, muitos esforços bem-sucedidos de reforma no Departamento de Defesa nunca usaram o termo. Por exemplo, o Coronel John Boyd, que pensou ampla e profundamente em guerras futuras, superou um processo de projeto e aquisição estrondoso para iniciar o desenvolvimento do ubíquo e econômico avião de caça F-16. Ele nunca escreveu uma estratégia ou mesmo um conjunto formal de regras até depois de seu tempo no Pentágono. Em vez disso, Boyd se baseou na defesa dentro do departamento e em uma abordagem mais teórica da guerra, sintetizada pelo ciclo de observar, orientar, decidir e agir (observe, orient, decide and actOODA). O ciclo OODA permitiu que seus superiores, colegas e aqueles que o seguiam incorporassem conceitos emergentes, novas tecnologias e novas idéias. Um único coronel com pensamentos e influência profundos teve muito mais impacto na futura força conjunta do que qualquer documento poderia ter.

Coronel Jonh Boyd e o Ciclo OODA, ou Ciclo de Boyd.

Até certo ponto, o sucesso de Boyd provou que o indivíduo, formalmente designado como estrategista ou não, é importante e as dificuldades do ambiente político apresentadas aqui podem ser superadas. Olhando para a minha própria experiência no estado-maior, não publicar um documento estratégico foi a melhor decisão para a força. Havia muitos interesses concorrentes de dentro e muitos requisitos de fora, o que sufocava o pensamento e perdia tempo. O que leva à segunda pergunta desta série: se um documento estratégico não funciona, o que funciona?

O Coronel Jobie Turner, Ph.D., é um colaborador do WAR ROOM e comandante do 314º Grupo de Operações (314th Operations Group).

314º Grupo de Operações.

Bibliografia recomendada:

Introdução à Estratégia.
André Beaufre.

Leitura recomendada: