sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sayeret Duvdevan - Krav Magá

Ilan, Aaron e outros operadores durante um momento de descontração.

Agora que havíamos ganhado o luxo de ter 6 horas de sono, as outras 18 eram empregadas no aperfeiçoamento do trabalho com os M-16 em ambiente urbano, nas viagens de ônibus todos os dias para seguir com o exercício de navegação em pares. Enquanto viajávamos, não tínhamos permissão para dormir, divagar nem relaxar. Em cada viagem, os instrutores instituíam o que chamavam de "treinamento de agressividade", exigindo que cada homem lutasse com unhas e dentes por todo o espaço do ônibus, num exercício brutal criado para fazer com que superássemos o medo naturalmente humano de ser atingido. Já estávamos extremamente cansados depois de suportar longos dias nos campos e, no momento em que entrávamos no ônibus, Ilan ou um dos outros instrutores começava a gritar: "Quem quer que esteja no assento 20, quero que vá para o assento de número 3 - agora! Nenhum de vocês pode deixá-lo chegar lá!".

Eu parecia ter me tornado o "Rei do Ringue", [*King of the Ring - nome de um torneio anual de luta livre cujo campeão recebe o mesmo nome] mas sem nenhuma sensação de diversão. Uma verdadeira desordem, uma luta, levando pancadas na cabeça de 40 homens ao mesmo tempo. A viagem de retorno até a base era de duas horas e fazíamos treinamento de agressividade o tempo todo. E, que Deus nos perdoe, trapaceávamos e deixávamos um dos rapazes deslizar até o assento. Os instrutores imediatamente paravam o ônibus, mandavam todos para fora e nos faziam correr a toda velocidade por entre pedras e árvores.


Imagem de apresentação do Krav Maga armado com fuzil.

Por mais estranho que pareça, havia um lado positivo. Depois de meses de confinamento, estresse e competitividade constante, é muito natural criar algumas rixas e ressentimentos. Meu próprio nível de frustração reprimida estava além do limite. Os exercícios diários de navegação eram particularmente difíceis para mim, dado o fato de o meu hebraico ainda ser fraco e termos de interpretar mapas muito detalhados com os nomes impressos em letra miúda. Então eu, na verdade, gostava do treinamento de agressividade. Ele me dava a chance de socar qualquer um que tivesse me provocado durante meses.

Não obstante, tratava-se de uma experiência primordial, por vezes assustadora. Durante algumas horas, todos dias, virávamos um bando de animais, parecidos com cães lutando por um pedaço de carne. Para evitar o risco de danos permanentes, não tínhamos permissão para acertar a face ou a cabeça uns dos outros, então acontecia um temporal de socos no estômago e nos rins, e homens caindo no chão a todo momento. Muitos dedos e costelas foram fraturados durante os dois meses naquele ônibus estúpido. Mas o que importa de fato é que fazer um homem lutar para conseguir passar por outros 30 ou 40 homens todos os dias durante dois meses o transforma psicologicamente de uma forma muito profunda. Isso ativa uma mistura de agressão que se torna impossível de ser desligada. Mais tarde, mesmo quando estava de licença, andava pelos tumultuados centros comerciais de Telavive e, quando um bando de adolescentes bloqueava meu caminho, eu começava a cotovelar e empurrar até que saíssem da minha frente, mas não pensava direito no que estava fazendo. É uma atitude mental que nunca me deixou, mesmo quando saí do exército. O treinamento de agressividade entra em seu circuito e o altera para sempre.

Brevê do Sayeret Duvdevan.

Para equilibrar a agressão selvagem do exercício do ônibus, começamos o treinamento básico de Krav Magá no ginásio, à noite, e cada aula durava cerca de três ou quatro horas. O Krav Magá, que pode ser basicamente traduzido como "luta de alto contato", é um sistema de autodefesa e arte marcial desenvolvido inicialmente em Israel, que recentemente se tornou popular entre forças militares e policiais de todo o mundo. Foi criado por Imi Lichtenfeld, natural de Budapeste, antigo lutador e boxeador que desenvolvera seu método em Bratislava, na década de 1930, para ajudar a proteger as comunidades judaicas contra ataques dos criminosos nazistas. Tendo chegado à Palestina em meio ao Mandato Britânico, Lichtenfeld começou a ensinar seu sistema de combate sem armas para o Haganá e, depois da Guerra de Independência, tornou-se instrutor-chefe de capacidade física e Krav Magá na Escola de Aptidão de Combate das FDI. Pouco conhecido fora de Israel, o legado de Lichtenfeld é um sistema de combate "do mundo real"; diferentemente das artes marciais tradicionais, como caratê, kung fu ou muay thai, não há uma variação esportiva da Krav Magá - cuja filosofia baseia-se em diversos princípios simples e eficientes:

Faça o maior estrago, o mais rápido possível.
Ataque imediatamente as partes vulneráveis de seu oponente -olhos, garganta, virilha, plexo solar.
Mude de defesa para ataque o mais rápido possível.
Transforme qualquer coisa à disposição em uma arma.
Esteja constantemente alerta para tudo o que acontece ao seu redor.

Sempre começávamos no chão, fazendo flexões com apoio na articulações dos dedos, para fortalecer nossos punhos, enquanto o instrutor de Krav nos falava:

"Toda vez que receberem uma lição de Krav, queremos 110%. Sem se defender. Quando mandarmos atacar, vocês não farão nada além de atacar. Quando passarmos uma técnica, vocês usarão apenas aquela técnica até que não sobre mais nada."

Treinamento disfarçado em Israel. A túnica chama-se "galabia" e o cachecol xadrez "keffiyeh". O AK47 é chamado em Israel de "Kalatch".

Era um processo de aprendizado cumulativo: todo dia acrescentávamos uma nova habilidade, quando já havíamos aprendido os princípios do chamado kravot - "os combativos". Começávamos com uma hora de exercícios nos sacos de pancada, não muito diferente do tradicional boxe ou do kick boxing. "Agora queremos um gancho de esquerda", o instrutor dizia. E tudo o que faríamos nos próximos momentos seria dar ganchos de esquerda. Então eles adicionavam um cruzado de direita, um golpe no queixo, um gancho de direita, algumas cotoveladas e joelhadas. Em seguida recebíamos ordens para executar um exercício demoníaco chamado shesh al shesh, em que corríamos a toda velocidade para trás e depois na direção do saco de pancada, tocar a parede, retornar aos sacos, 10 ou 12 vezes até ficarmos completamente exauridos.



E então, só para confundir ainda mais, eles lançavam uma variação do nosso treinamento de agressividade. Eles chamavam aquilo de Corredor da Morte.

"Todos vocês formem uma fita reta", gritava o instrutor de Krav. "A primeira pessoa da fila deve chegar até o final dela, mas vocês não podem deixar, entendido? Se alguém chegar ao final da linha, acreditem em mim, vocês todos se arrependerão."

Através de uma nuvem de chutes, socos e pontapés, o instrutor gritava seu encorajamento:

"Quando eu digo para não o deixar passar, é para não o deixar passar! Não quero que façam o melhor possível! Quero que não o deixem passar! Sem desculpas!"

Já como instrutor no terceiro ano de serviço.

Após uma de nossas mais cruéis sessões de Krav, um estranho apareceu na academia. Era sefardita, de cabelos escuros e cerca de 36 anos. Não tinha mais de 1,70 m de altura, cerca de 70 quilos, vestia um uniforme amarrotado e a barba por fazer. Particularmente, não me pareceu intimidador. O instrutor ordenou uma nova rodada do Corredor da Morte e, dentro de 30 segundos, usando nada além de sua força de vontade e seu baixo centro de gravidade, aquele pequeno rapaz nocauteou todos nós. Não havia como pará-lo; precisaríamos ter posto um guindaste na frente dele. Ele era mentalmente forte demais.

Depois de acabar conosco, prontamente saiu do ginásio sem mencionar uma única palavra. Estávamos sem palavras, sem fôlego, gemendo de dor.

"Quem era esse, porra?", eu disse.

O instrutor não nos disse. Mas, algumas semanas depois, descobri quem era o pequeno turrão. Era um coronel chamado Muki, o comandante da unidade.


- Aaron Cohen, Irmandade de Guerreiros: Por trás das linhas inimigas com um membro de elite das Forças Especiais de Defesa de Israel, pg. 113-117.


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