quinta-feira, 16 de abril de 2020

Como a guerra foi perdida: Tim Bowden reflete sobre a vida como correspondente da Guerra do Vietnã

O correspondente da ABC Tim Bowden (à direita) com seu guarda-costas fuzileiro naval americano Jim Keith, perto de Danang, Vietnã do Sul, em 1966. (Tim Bowden)

Por Tim Bowden, ABC News, 23 de setembro de 2015.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 16 de abril de 2020.

Parece improvável agora, mas o otimismo em torno da intervenção Aliada na Guerra do Vietnã era otimista em 1966. O presidente Lyndon B. Johnson estava aumentando o envolvimento dos EUA para meio milhão de homens. O desastroso (para os Aliados) levante do Tet estava a dois anos de distância.

O Exército Sul-Vietnamita estava lutando galantemente e bem contra o Viet Cong e Exército Regular Norte-Vietnamita. Eles estavam sofrendo baixas enormes, como continuaram a fazer mesmo quando o Exército dos EUA acreditava que estavam lutando a maior parte dos combates úteis. Isso foi uma ilusão.

Cobrir uma guerra de guerrilha é sempre difícil para um repórter.

Basicamente, você só precisa sair no campo na esperança de que algo possa acontecer.

Em março de 1966, voei de Saigon para Danang, no norte do Vietnã do Sul. Os americanos o levariam para qualquer lugar que você quisesse. Foi a primeira - e a última - guerra "aberta", na qual eles recebiam correspondentes de qualquer lugar para mostrar como estavam lutando contra o comunismo.



Me uni a uma patrulha de 24 horas em uma "free-fire zone" ("zona de fogo livre") perto de Danang com os fuzileiros navais americanos. Eu até recebi um guarda-costas pessoal, um jovem Lance Corporal* fuzileiro naval, Jim Keith, que já havia ganho cinco Purple Hearts** - medalhas dadas por ser ferido em combate.

*Nota do Tradutor: A graduação de Lance Corporal corresponderia ao "segundo-cabo", sem equivalente no Brasil mas que ainda existe em Portugal. Até o final do século XIX, esse posto era o de Anspeçada, abolido no Brasil no início do século XX. Atualmente, apenas o USMC mantém a graduação de Lance Corporal, sendo o posto mais comum da corporação. A maioria dos alistados fuzileiros navais termina o serviço nesse posto, o que gerou o lema "Terminal Lance", que também é o nome do quadrinho mais famoso do USMC.

As zonas de fogo livre não significavam que ninguém morava lá. A maioria dos agricultores vietnamitas optou por ficar e cultivar suas terras ancestrais. Mas, à noite, os americanos costumavam disparar morteiros aleatórios no campo para desestabilizar as tropas do Vietnã do Norte que controlavam a área nas horas de escuridão, e frequentemente atacavam patrulhas como a que eu havia escolhido participar. As baixas civis eram inevitáveis.

Um exemplo clássico do porquê da guerra não poder ser vencida

Nosso líder de pelotão, que tinha cerca de 16 anos para mim, era apoiado por dois enormes tanques, que roncavam pelo campo "com toda a sutileza de um ataque de elefantes", como registrei na época.

Esse tipo de atividade andava de mãos dadas com a estratégia de "conquistar os corações e as mentes do povo", que tinha a infeliz sigla de WHAMMO. (Outro correspondente me disse mais tarde que ele tinha visto um soldado na região de Delta no Vietnã do Sul com o slogan "Deixe-me ganhar seu coração e mente ou eu vou queimar a porra da sua casa", pintado em seu capacete de combate.)



Em um ponto de nossa ruidosa progressão pelos arrozais secos, um fuzileiro naval - que eu suspeito que estava entediado ou queria alguma ação para me impressionar - anunciou que viu o que pensava ser o capacete de um soldado "hard corps"* do Vietnã do Norte em uma vila próxima.

*Nota do Autor: "Hard corps" era um jargão para um soldado do Vietnã do Norte adequadamente uniformizado (com um capacete de aço), em vez de um soldado vietcongue de pijama preto.

Os tanques giraram em posição e explodiram a aldeia com seus pesados canhões, destruindo um pequeno pagode budista no processo, acompanhado por gritos e aplausos dos fuzileiros navais. Em boa medida, eles convocaram um ataque de artilharia da sua base.


Aldeões vietnamitas usados como detectores humanos de minas. Um fuzileiro naval americano está atrás dos aldeões vietnamitas sendo forçados a atravessar um campo minado suspeito. (Tim Bowden)

No início da patrulha, fiquei horrorizado ao ver o comandante da patrulha de fuzileiros navais juntar homens idosos e mulheres, e então fazê-los andar na frente dos dois tanques como detectores humanos de minas em uma seção de terreno difícil.

Quando perguntei sobre isso, o líder da patrulha me disse que havia perdido seu melhor cabo uma semana antes, quando pisou em uma armadilha naquela área. Ele disse que os aldeões sabiam onde estavam as minas e se agrupariam ao redor e não se moveriam quando se aproximassem de uma.

Embora compreensível de uma maneira, não parecia bom. Nem conquistou corações e mentes, alguém teria pensado.

É por isso que os americanos eventualmente perderam a guerra.

Os próprios fuzileiros foram treinados para tomar de assalto cabeças-de-praia e tomar território rapidamente. As táticas de guerrilha do Vietnã do Norte não se adequavam ao seu estilo.

Mas a desconexão total com o povo vietnamita - e seu exército - foi como um câncer corroendo toda a empreitada.

Como meu amigo e colega tasmaniano, o cinegrafista Neil Davis, disse: "Os americanos pensavam nos soldados sul-vietnamitas como se fossem pequenos animais engraçados correndo por aí".

Aquela patrulha de Danang com os fuzileiros navais americanos em 1966, agora percebo, era um exemplo clássico do porquê da guerra não poder ser vencida. Mas, não parecia assim na época.

Original: https://www.abc.net.au/news/2015-09-23/tim-bowden-reflects-on-life-as-a-vietnam-war-correspondent/6794678

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